
TRÊS "GRAÇAS" SEM GRAÇA.
Data 15/06/2015 23:34:44 | Tópico: Prosas Poéticas
|
-Ó lua porque sorris, se não vejo a minha amada? (aparte) -Que será que o carteiro foi fazer à casa dela?
Gostou? Não gostou?! Nem eu! Nem o Epifânio, mas esse, é por causa do carteiro. Mas, mesmo assim, devo dizer-lhe que anda por aí coisa muito pior e tão descarada que há de pensar quem a veja: "Pode ser que seja honrada mas pode ser que o não seja!" A poesia que hoje se vê (salvo honrosas excepções), é atrevida e sem graça. Intitula-se moderna e realista e, decerto que é, porque não tem poesia! Veja, agora, estimado/a leitor/a, se o velho Camões tivesse usado o realismo em vez de um tal 'Manto diáfano da fantasia'? Que bronca, amigos e amigas! Se, por exemplo, naquele célebre soneto evocando a sua querida Natércia, ele, em vez de dizer: "Quão cedo de meus olhos te levou" Dissesse: "Quão cedo do meu olho te levou"! Era mais real, não era? Mas, o diabo é que o olho soa diferente e, por essa razão e outras, é sempre um causador de encrencas. Digamos, então, como Camões, o maior poeta português que via mais com um olho (aqui, sim) que outros vêem com os três (como bem o disse Bocage, em desconcertante improviso mas, com final bem rimado como, então, era preciso).
Você, era linda, poesia! De perfumes variados, rendas e bordados... era um encanto! Agora, não cheira a nada anda desmazelada, mas tanto, tanto...
A bela poesia, não tem mais o gosto da Pompadour, nem o sorriso da Gioconda e, muito menos, a graça de Maria! De braço dado com sua amiguinha a pintura, vivem num regabofe, dançando, até o "chuc-chuc" que será uma nova dança que ainda hão de inventar. Estão irreconhecíveis! E não é que apareçam com novos princípios ou se mostrem em ângulos esquecidos! É que deu a louca nas "gajas" e, arregaçando as saias, sem ao menos saberem se trazem tudo vestido, desataram aos pinotes gritando para toda a parte que, assim mandava "o novo engenho e arte".
Na velha capital do pensamento (que há muito virou capital de outra coisa), até já aconteceu de certo "artista" ter ganho o primeiro prémio de uma exposição tendo o seu "famoso" quadro, voltado de cabeça para o chão. E, quem o disse, foi ele mesmo, não é conversa nossa, não! E graças à "consciência" dos juízes, é que vivem felizes, certos "infelizes".
A taradologia em que se inspira o artista contemporâneo dá para ele ver coisas que mais ninguém vê e, por isso, o autor tem de explicar onde fica o nariz, os olhos e as orelhas.Tem pintura que a gente julga estar vendo um naufrágio no pólo Norte e vem o autor e diz que é o Judas de cócoras no deserto.
A música, por sua vez, carrega tanta harmonia que parece um ferro-velho com tanta lataria. Que pureza de sons! Que frases maravilhosas! Que ternura! E com estas três loucas à solta, não querem que haja loucura? Lendo o que se lê, vendo o que se vê, ouvindo o que se ouve, o resultado é este: calça-se a couve e regam-se os sapatos com azeite de oliva ou dendê. Que hospício!
O nu anda tão desnudado que dá para ver ao ponto a que foi rebaixado. A pureza e a alvura, são resquícios da velha literatura! Nesse tempo, até a rameira, que era trazida dos lupanares reais ou das vielas sombrias para as páginas ou telas de obras imortais e, em análises de alma, profundas e humanas, assim era tratada mas, agora, vem pelo corpo que vende e não pela alma que chora. É a vitória do negativo sobre o positivo.
As três graças, se apresentam, ora de modo confuso e infantil, ora em torpes exibições animais, inglórias e impuras que afectam o espiritual das criaturas; eis o que se vê e, por isso, ninguém as sente nem crê.
Ó quem me dera que o céu, de vestes severas, me enviasse o vento em louca correria a gritar-me enfurecido: -É falso, é falso, negativo esteta! -Que sabes tu, pobre pateta? E eu ficaria bem contente, por saber-me tão errado e tão certa a outra gente! Veria, assim, desta mocidade, o futuro garantido e não esse que vejo: abobalhado, perdido! Eu sentiria, se tal acontecesse, tamanha alegria que me felicitaria se errado estivesse!
Fazei, Senhor, que as três graças citadas, venham a mim, às gargalhadas e com razão de mofar! Juro, a elas me juntar e, depois, todos, enfim...terminarmos a rir de mim.
Quem dera! Quem dera que fosse assim!
J.Barreto.
|
|