
Queixas de um Espirito Revoltado - auto-retrato
Data 14/05/2015 15:34:16 | Tópico: Poemas
| Viver o tempo que passa pregando a dor ao chão é loucura, é desgraça, é mastigar o coração.
Apodrecer as raizes d'um internado que é louco é lamber as cicatrizes de quem vai morrendo aos poucos.
Cão vadio porque me ladras se só quero a tua festa, já que somos desta raça, ser vádio é o que nos resta.
E o que dizer da ilusão?! Que não há corpo nem memória, não há Espirito, oração, que lhe possa ter vitória.
Nas veias do pensamento corre o sangue da solidão num pensar quase tormento que nos tolda a razão.
À sombra dos nossos corpos, projectada na parede, passa o sonho de estar mortos de que temos tanta sede.
Somos filhos, rejeitados, de uma mãe que nos gerou, somos mortos, condenados, por um pai que nos matou.
Somos corpos mutilados pelo tempo que passou, do rosto que nos foi dado nem o lastro lhe ficou.
Dão-nos um lamento sem fim no crispar da persistência, mas porquê de sermos assim numa longa inocência?!
Não há verdade nem glória numa vida sem enredo não há clareza na memória de não vivermos com o medo.
Em espartilhos de ferro num destino que é constante condenados ao enterro estamos todos lá à frente.
Como os troncos que são tortos é pesado amar os vivos, vou-me embora com os mortos em velórios proibidos.
P'ró pensar que me desgraça talvez não tenha solução, que por mim a vida passa pregando a dor ao chão.
Ricardo Maria Louro em Lisboa
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