
Paula
Data 10/02/2008 23:41:29 | Tópico: Contos
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Já passava da meia-noite. Lá fora o vento batia forte e chovia torrencialmente. Paula tinha acabado de chegar a casa e estava completamente ensopada. As suas calças de cabedal eram a única peça de roupa que não se colava ao corpo. A viagem de avião tinha corrido bem. Trazia ainda o perfume forte do Luís. Meu Deus, como sentia a sua falta! Tinham passado alguns minutos, apenas, desde que ele a deixara à porta de casa... Estava exausta. Dirigiu-se ao quarto de banho para se entregar ao conforto de uma imersão de espuma perfumada e quente. Atirou com as peças de roupa para o cesto metálico da enorme e bem decorada sala de relaxamento. Acendeu as velas, uma a uma, ligou a sua música preferida, encheu uma taça de champanhe e mergulhou nas águas quentes e sedutoras da banheira em tons de azul. Sentia o calor percorrer todo o seu corpo. Numa preguiça sensual deslizou a sua mão por entre as coxas e envolveu-se numa excitação suave... Precisava de voltar a sentir o corpo a estremecer de desejo como naquele minúsculo cubículo – a que chamavam de casa de banho, no avião - onde ela e o Luís, horas atrás, fizeram amor de uma forma selvagem, deliciosamente única. No auge da excitação sobressaltou-se com o toque insistente e irritante do telefone. Não lhe apetecia sair daquele conforto quente e tranquilo. Enrolou o corpo, saciado, na toalha macia e branca com toques de azul-turquesa e foi atender o telefone. - Estou? - Olá querida, como estás? Era o Carlos, o seu namorado. - Olá, acabei de chegar do aeroporto, Está como sabes, um temporal e cheguei a casa toda encharcada, fui tomar banho para me aquecer. - Posso passar por aí agora? Preciso ver-te. - Oh Carlos, hoje não, estou cansada e vou já deitar-me. Vemo-nos amanhã pode ser? - Não pode mesmo ser hoje? - Não, querido. - Então, está bem, vou ter contigo ao Hospital por volta das dez. Ok? - Às dez não, ainda estou nas consultas. Vai ter comigo ao bar e almoçamos qualquer coisa por volta da uma e meia, pode ser? - Está combinado. Sonhos lindos Paula. - Beijinhos. Incomodou-a o telefonema do Carlos. Ainda húmida, deitou-se e tentou dormir. As recordações daquele dia passado em Nova York com o Luís não a deixavam adormecer. Queimava-lhe o desejo do seu corpo. Como fora possível? O irmão do seu namorado? Rebolou vezes sem conta nos lençóis brancos de cetim. Roía-lhe o desassossego da traição. – Amanhã esclarecia tudo com o Carlos e logo se via como ele reagia. O despertador acordou-a às sete horas. Espreguiçou-se lânguida e ficou os seus cinco minutos sagrados enrolada em si. A rotina da manhã era igual à de todos os dias. Um duche rápido, vestir uma roupa confortável com um toque de provocação, a maquilhagem leve e discreta, o café forte bebido golo a golo, para um despertar sereno, encontrar as chaves, os cigarros, o batom e mais uma meia dúzia de coisas inúteis para colocar na carteira. Entrar no carro a caminho do Hospital. Era sempre assim… A manhã decorreu normal, os doentes com as suas queixas infinitas, o sorriso cúmplice que, invariavelmente, melhorava a disposição das pessoas e a correria habitual. Perto da uma, o Carlos enviou-lhe uma mensagem dizendo que já estava no bar à sua espera. Aquela meia hora foi longa e angustiante. Ela desceu no elevador e quando chegou ao bar lá estava ele. Beijou-o na face e com um “Olá” constrangedor sentou-se à mesa. - Estás linda Paula! - Obrigada, mas ainda estou com os horários trocados. - É normal, o pior destas viagens é mesmo o jet lag. - Pois é… - disse desconfortada. A tensão e os esporádicos silêncios instalaram-se, entre eles. Não conseguiam olhar nos olhos um do outro. A conversa parecia sem nexo e sem rumo. De qualquer forma, sentiu o Carlos tão inquieto quanto ela, o seu sorriso era nervoso e aquele seu tique de alisar o cabelo, tornava-se evidente de mais. Ganhou coragem e perguntou: -Que tens Carlos? Pareces-me preocupado, passa-se alguma coisa? -Pois, nem sei por onde começar… Preciso muito de ter uma conversa franca e aberta contigo, Paula. -Que se passa Carlos? – Indagou já sem sorriso e meia atrapalhada… -Querida, já andamos juntos há dois anos, não é? -Sim… -Pois…. Tem sido uma relação aberta, de cumplicidade, tu és uma miúda fantástica, inteligente, linda! Tudo o que um homem deseja encontrar numa mulher para ser sua companheira. Mas, na verdade, não temos sido muito honestos um com o outro. O seu coração disparou. O que estava a acontecer? Será que o Luís tinha contado ao irmão o que acontecera? E agora? Olhava para o Carlos, queria dizer alguma coisa mas não conseguia articular uma única palavra. - Paula estou apaixonado. - Sei Carlos, mas preciso de conversar contigo… - Não digas nada por favor: Não sei como dizer isto. Bem… sei e é melhor que seja sem rodeios. Não te amo como julgava amar-te, Paula. Encontrei realmente o amor que sempre procurei e de uma forma desonesta fiz-te acreditar que eras tu. - Espera lá Carlos, deixa ver se eu estou a perceber, estás a dizer-me que estás apaixonado por outra mulher? É isso? Há quanto tempo? - Esta relação começou há três meses e é realmente paixão que eu sinto, não posso mais esconder…
Paula ficou furiosa! Tinha sido enganada durante três meses e ali estava ela, cheia de remorsos pelo que tinha acontecido no dia anterior, no avião. Reconhecia que também não tinha tido um comportamento correcto, pelo contrário, mas estava disposta a pedir-lhe perdão pelo seu acto de loucura. Porém, ele não. Tinha-a enganado durante três longos meses com outra… - Paula, estás a ouvir-me? - Estou sim, Carlos! - Respondeu em tom agressivo. Posso saber quem é ela? - Sim Paula, finalmente vou ser honesto contigo e comigo. Chama-se Joel, tu sabes quem é…. - Joel?! O nosso amigo Joel?... Não, só podes estar a brincar comigo. Lá estás tu com as tuas gracinhas de sempre. - É verdade Paula. Não imaginas o quanto foi doloroso para mim não me assumir como homossexual durante tanto tempo… Eu fingia que nada se passava. Mas a verdade é esta, eu sou homossexual. Desejo muito que tu me perdoes e consigas continuar a ser minha amiga, porque eu gosto muito de ti querida, mas não da forma que tu queres ou da que te fiz acreditar. Homossexual? O Carlos? Nunca lhe teria passado semelhante ideia pela cabeça… E agora? - Fala Paula, diz qualquer coisa, por favor! – Implorou. O telemóvel dela tocou. Atendeu sem ver o nome no visor. Era o Luís.
- Sim, Luís. Olá como estás, desde ontem? - A morrer de saudades tuas, Paula. A que horas sais? Vou buscar-te preciso de te ver, de te ter de novo! - Espera um pouco por favor, ligo-te já. - Não demores muito, não consigo esperar mais, estou louco de saudades. - Até já…- Gaguejou. - Era o meu irmão? Antes de ele ir para Nova York contigo, falei com ele e contei-lhe tudo. Era importante para mim que ele soubesse e esperava o seu apoio, claro. Foi extraordinário. Disse-me que seria sempre o mesmo irmão e confidenciou-me que estava, perdidamente, apaixonado por ti e que assim seria mais fácil tentar conquistar-te. - Ai Carlos, já nem consigo pensar direito. Uma, duas notícias destas deixam qualquer um desorientado. Dá-me tempo por favor, preciso de me recompor. - Claro que sim Paula, o tempo que precisares. Deixa-me dizer-te só mais uma coisa e depois vai. Não tens que me explicar nada do que aconteceu entre ti e o Luís. Estou muito feliz por vós. Vou adorar ter-te como cunhada. - O quê? Tu já sabias? - Sim, o Luís contou-me tudo ontem à noite. Por isso telefonei-te porque era mesmo muito importante, para mim, ter falado ontem contigo. Não queria que passasses uma noite angustiada, como sei, conhecendo-te, que passaste.
Olhou-o, como nunca o tinha olhado! Uma mistura de emoções parecia explodir no seu peito. Abraçou-o ali mesmo e só foi capaz de dizer: - Desculpa, Carlos. Obrigada…. Saiu dali a correr, com um belo sorriso nos lábios, sem se importar com quem estava a ver. Necessitava, urgentemente, de estar com o Luís, de sentir de novo o calor daquele corpo que a tinha enlouquecido, que a tinha feito sentir fêmea por inteiro.
Rosa Maria Anselmo
.... Este é o meu primeiro conto.... aceitam-se todo o tipo de criticas! obrigada antecipadamente pelos vossos comentários... só assim saberei se posso continuar a escrever neste género, dado que tenho escrito apenas poesia....
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