
O Morto - poesia moçambicana (João Pedro Grabato Dias)
Data 29/03/2015 12:39:16 | Tópico: Poemas -> Dedicatória
|  Como o morto nunca nos diz nada vem daí o extremo penoso da sua presença (...)
Colam-se nos com o suor, à ilharga e um corujão sagrado de penas de seda, aloja-se perpetuamente em nossa nuca. O pio que nunca chega é o castigo (...)
Somos muitos, somos todos um mil patas de reverência (...)
Passa a revoada matinal das rolas E os olhos de todos seguem-nas, numa alegria sem contexto até se arrependerem na orla do pinhal e no tossicar do cura. (...)
Sofrem que lhes fale sem brevidade. Assim é preciso. Apenas o raio é rápido, apenas o acabar, o cindir dos elementos é misericordioso embora não fugaz. Fugaz é o lento subir da sequoia em mil anos fugaz será o amadurar do cristal de rocha, e eu não diria ser fugaz um tampo de galáxia se o não soubera. João Pedro Grabato Dias, poeta moçambicano.
* O Morto é um longo poema sobre a experiência da morte, abordada com “o pudor das coisas demasiadas” (oxímoro que o poeta repete em vários livros). O poema desencadeia numerosas associações mas desta vez mais existenciais que estéticas. A ode espraia-se como uma onda que surfa numa lenta reflexão, visando claramente um “pathos”, pois ( e por aqui se incute o didatismo da ode) só no reconhecimento dos limites (que a vigília sobre a ausência do morto desperta) reaprendemos a exumar as emoções devidas àqueles que por breves estações são os condóminos do nosso espaço biográfico e que a luxuriante despersonalização pelas palavras alienou. Mesmo a noção do ritmo que nos ejecta as palavras é, nesta acareação com o morto, posta em causa. Vemos assim como a presença da morte suscita uma nova cartografia para a recepção dosvínculos e para a oleosa exterioridade do mundo. (In: Revista de Cultura Agulha, no. 60, Fortaleza - São Paulo, novembro/dezembro de 2007.
Pintura: Rene Magritte.
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