
A Procissão do Enterro
Data 22/03/2015 03:19:30 | Tópico: Poemas -> Dedicatória
| É noite na cidade … noite cerrada. Sexta-Feira da Paixão … E vai um morto a sepultar! Há sombras que se cruzam pelas ruas. Gentes de negro. Negras gentes.
Deus no Céu se alteia, que na Terra, nada É, como está ou deve ser!
E há lamento. E há saudade. Parece a Morte triunfar. E um cortejo se avizinha. Capas negras. Solidão... Corpos vacilantes num passo de lamento. Círios apagados, ainda … Velas sem destino pela rua em tantas mãos. Olhos inocentes, ausentes, descrentes. E tanta gente … tanta gente …
Gestos de culpados. Arrependimento feroz. Secura. Andores pela rua ao som dos passos de quem espera e desespera … Irá Deus a sepultar?! Deus morreu?! A Morte não é o fim mas o começo, estranha contradição. Ressurreição …
E vão … passando … num pisar de negro luto … … passam... indo … pisando a solidão … mas vão … … vão … vão ….
E aonde irão?! Aonde?! …
Deus foi morto pelos Homens?! Que estranha percepção … é loucura, sonho, ilusão … cai o firmamento!
Se Deus não morre, quem vai ali, naquele esquife a enterrar?!! Quem?!!...
E o cortejo toma forma, a marcha alinha, o Povo no compasso, num compasso de amargura, espalha pela rua um lamento, um grito de solidão …
Há um eco de saudade!
“O SENHOR É MORTO! O SENHOR É MORTO! O SENHOR É MORTO!”
Terá morrido?!! … Não creio! Não creio! Não creio! ...
Ricardo Maria Louro em Évora
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