
Paraíso Perdido - Canto XII (John Milton)
Data 18/03/2015 01:51:28 | Tópico: Poemas -> Religião
|  ARGUMENTO DO CANTO XII
O anjo Miguel continua a contar o que há de suceder depois do dilúvio: — então, fazendo menção de Abraão, vai gradualmente até explicar quem é a “raça da mulher” prometida a Adão e a Eva em sua queda. Encarnação, morte, ressurreição e ascensão do Redentor. Estado da Igreja até sua segunda vinda. Adão, mui satisfeito e sumamente confortado por estas narrações e promessas, desce da colina com Miguel. Vai acordar Eva que tinha dormido durante todo esse tempo, — mas já disposta, por meio de sonhos agradáveis, à tranquilidade de ânimo e à submissão. Miguel, tomando-os pela mão, leva-os para fora do Paraíso: — a espada de fogo brande-se furibunda por detrás deles, e os querubins tomam seus postos para guardar o jardim.
CANTO XII - O Paraíso Perdido
QUAL caminhante que, apesar de ansioso Por quanto antes findar seu longo giro, Descansa as horas em que o sol mais queima; Assim, de Adão às reflexões dando azo, O arcanjo então a narrativa susta Do aniquilado Mundo entre as ruínas E a aparição do Mundo restaurado. Depois com suave transição prossegue:
“Viste fazer e destruir um Mundo, E de outro tronco alçar-se a humana espécie. Mas eu percebo que teus olhos cansam Inda que destes quadros portentosos Muito lhes escapou: curvam, fraqueiam Sob assuntos do Céu térreos sentidos; Por isso, desde já, passo a contar-te O mais saliente nos futuros evos. Tu dócil presta-me atenção; escuta. A nova estirpe humana, enquanto pouca, Enquanto impresso conservar na mente Da punição passada o frio susto, Irá vivendo no temor do Eterno, Seguindo a retidão e a sã justiça. Então, obtendo em breve infinda prole, Cultivará da terra o fértil seio Que abundância dará de áureas espigas, De vinho animador, de puro azeite: Oferecerá das greis, dos armentios, Ao Rei do Empíreo vítimas frequentes, Esparzidas com vinho em larga cópia Servidas logo nos festins sagrados. Cheios de gozo, de inocência cheios, Seus dias correrão; a paz mimosa Tem de uni-los por tempo dilatado Em tribos fraternais, ampla família, Do paterno governo à sombra sacra. Rebela-se depois varão soberbo, Que no peito orgulhoso não acolhe A igualdade gentil, fraterno estado; E, arrogando-se a si domínio férreo, A seus irmãos a liberdade usurpa. Ímpio caçando (brutos não, mas homens), Com guerra e hostil engano a todos fere Que à sua tirania não se curvem. De todo então da Terra se retiram Concórdia, paz, e leis da Natureza. De grande caçador se impõe o nome, Ou por desprezo ao Céu, ou porque aspire A ter quinhão do Céu no império sumo: Inda que tacha de rebeldes todos Que opostos são à tirania sua, Toma o nome da própria rebeldia. Com grandes turmas, que como ele intentam Sob seu domínio escravizar o Mundo, Sobre o ocidente do Éden se dirige: Lá depara como um campo onde ampla se abre Betuminosa, denegrida furna, A qual, do Inferno parecendo boca, Imensos turbilhões de lava expele. De tijolos com ela betumados Pretendem levantar fábrica enorme Que vá coa frente topetar no Empíreo, E obter, por obra tal no inteiro globo, Altissonante, duradoura fama (Ou seja boa ou má, o tudo é tê-la). Deus, que para as ações notar dos homens Vê-los a miúdo vem, não deles visto, Passeando atento nas moradas suas, Então observa a temerária insânia E desce à Terra enquanto a altiva torre Inda as torres do Céu não comprimia. Rindo-se de tão débeis contendores Sobre as línguas lhes lança inquieta fúria Que a linguagem nativa lhes corrompe, Semeando logo com discorde arruído Uma aluvião de incógnitas palavras: Vozeiam, gritam, uivam, enrouquecem; Troa de vozes um trovão terrível; Chamam sem se entenderem uns por outros, Té que enraivam julgando-se zombados. Os íncolas do Céu muito se riram, Vendo a desordem, escutando o estrondo. Abandonaram os obreiros a obra Que foi Babel ou confusão chamada.”
Com zelo paternal Adão sentido: “Filho execrando” (diz), “que assim pretendes Teus irmãos concursar, a ti tomando Usurpado poder, por Deus não dado! Do mar, da terra, do ar, sobre os viventes Ele nos concedeu pleno domínio, Que só a seu favor nós o devemos; — Porém, de homens senhor, não fez um do outro: Para si reservou este apelido; E quis que os homens, bondoso e justo, Independentes uns dos outros sejam. Mas este usurpador não só dirige Seu arrogante orgulho contra os homens: Cercar e provocar ousando o Eterno, Alevantou contra ele a insana torre. Desgraçado mortal! Como puderas Alimentos levar além das nuvens Para tuas falanges temerárias? O nímio ar sutil n’alturas tantas Teus bofes dilatados não nutrira: Morreras, de ar e de alimento à fome!”
“Do ódio teu” (diz Miguel) “digno é tal filho” Que a paz assim turbou da espécie humana, À justa liberdade impondo jugo. Atento vê porém que o teu pecado, Pondo a reta razão em plena ruína, Destruiu a verdadeira liberdade, Que em íntima junção com ela existe E não tem só por si própria existência. Assim que no homem a razão se estraga, Tomam-lhe o posto no mental governo Turvas paixões, desejos desregrados; Fazem-no escravo então, sendo antes livre. Deste modo consente o miserável Que dentro em si poderes tão indignos Sobre a livre razão folgados reinem. Em seu justo pensar então o Eterno A social liberdade lhe reprime Destinando-lhe aspérrimos senhores Que, sem causa bem vezes, o escravizam. Assim a tirania é necessária, Posto que se castiguem os tiranos. Tempos virão em que nações perversas, Contra a razão calcando as sãs virtudes, Por tiranos serão desapossadas Da social liberdade, assim que percam Com a razão a liberdade da alma, De enormes crimes seus castigo justo. Do fabricante da arca o ímpio filho Testemunho dará do que hoje avanço: Pela que fez ao pai infâmia hedionda, Esta pesada maldição escuta Que a si e à sua geração abrange: — “De escravos hás de ser tu mesmo escravo”, — Como o primeiro, o derradeiro Mundo Vai de mal a pior: o Onipotente, De tantas injustiças já cansado, Dos maus apartará sua presença, Retirará seus olhos sacrossantos, Deixando os ímpios desde então entregues Aos caminhos corruptos que se abriram. Escolherá um povo predileto Que aras submisso lhe erguerá, nascido De virtuoso varão na fé preclaro Que do Eufrates morava nas ribeiras, Dos ídolos na crença doutrinado. Oh! quanto os homens (poderás tu crê-lo?) Inda nos dias do patriarca ilustre, Que salvou do Dilúvio a prole humana, Se têm de embrutecer negando, indignos, Ao vivo Deus os sacrifícios e aras, Para adorarem, como ingentes numes, De pedra e pau imagens que fizeram! Digna-se Deus chamar esse homem justo Da casa paternal, dentre os parentes, Dentre os mentidos numes que adorava: Mostra-lhe uma visão onde lhe indica Uma terra a que vá; que ele o começo Será de ingente povo, em que do Eterno A bênção recaindo, os povos todos Serão, da estirpe sua, abendiçoados. Obedece o varão: qual terra seja Não sabe; mas na fé sempre é constante. Não podes vê-lo tu; mas eu o vejo Partir cheio de fé largando a pátria, A fértil Ur nos prados de Caldéia, Numes e amigos. Ei-lo o Harã passando; Seguem-no imensas greis, manadas, servos: Opulento senhor, não pobre errante, A Deus, que o chama a terras não sabidas, Suas riquezas generoso entrega: Seus pavilhões em Canaã plantados Junto a Sechem lá vejo, e mesmo ocupam De Moreb as campinas vicejantes. Ali lhe entrega Deus, inda em promessa, Vasta região para ele e a prole sua: Falo-te em nomes no porvir usados. Tem o deserto ao sul, o Hamath ao norte, O grande mar no ocaso, o Hermon a leste. Repara o que te aponto: deste lado O Hermon se eleva; além o mar se estende: Ali pegado à praia entra nas nuvens Do Carmelo a montanha donde nasce De fontes duas o Jordão divino, Próprio limite das regiões Eoas: Mas povoarão seus filhos quanto alcança Té Seir que a cordilheira além te mostra. Pondera que serão nesta família Abendiçoadas do Orbe as nações todas: Sairá dela o Salvador augusto Que esmagará da serpe a imunda fronte: Logo to hei de mostrar com mais clareza. Há de Abraão chamar-se em próprio tempo O abendiçoado patriarca: um filho Deixará, — e por ele um neto ilustre, Igual do avô na fé, na ciência e fama. Com doze filhos o ditoso neto Parte de Canaã, entra no Egito: Olha o Nilo que o rega e donde corre; Lá deságua no mar por bocas sete. A vir morar ali foi convidado Por um dos filhos em faminto tempo, — Filho, cujas ações no egípcio Império O puseram no grau chegado ao trono. Eis que ele morre, e sua raça deixa Inda crescendo de nação em corpo: Já grande ao novo rei inspira sustos, Que intenta obstar-lhe à geração os vôos Como se fosse de hóspedes terríveis: Tirano o asilo em servidão lhes muda, E mata os filhos que varões lhes nascem. Deus então manda que em seu sacro nome Moisés e Aarão, irmãos assim chamados, Do cativeiro o pova seu reclamem: Voltarão todos com espólio e glória Para a ditosa terra prometida. Porém, primeiro que este bem alcancem, O ímpio tirano a conhecer se nega O grão Deus de Israel, seus altos núncios. Por terríveis sinais, duras sentenças, Há de ser a deixá-los compelido: De seus rios as rápidas correntes Em sangue não vertido hão de mudar-se; Torva aluvião de rãs, nuvens de moscas, Vermes sem conto povoarão nojentos Todo o palácio seu, seus reinos todos; Peste asquerosa matará seus gados; Chagas, tumores cobrirão infectos Dos povos seus e dele mesmo as carnes; Do raio o fogo e da saraiva a neve O céu do Egito rasgarão concordes, E, pela terra aspérrimos rolando, Tudo aniquilarão que nela gira; Os grãos, frutos, e plantas que escaparem, De gafanhotos um cruel dilúvio Come, deixando sem verdura a terra; Por dias três escuridão palpável Rouba a luz, todo o Egito em si imerge; Deles depois, à meia-noite em ponto, Prostra os recém-nascidos fera a morte. Às dez pragas fatais assim cedendo, Por fim submete-se o dragão do Nilo E consente partir a hebréia gente: A miúdo humilha o coração de bronze. Mas — como a neve, que o calor fundira, Fica mais dura, se de novo gela, — A raiva sua eis que de ponto sobe, E torna a perseguir os desgraçados. Confiado ao justo seu o Eterno havia Grão poder, — e, presente então num anjo, Lá vai adiante do escolhido povo (De dia, envolto numa argêntea nuvem; De noite, dentro de um pilar de fogo, Para dos passos seus marcar-lhe o rumo), E ao mesmo tempo, com seu amplo auxílio Protege-lhe piedoso a retirada Contra o rei pertinaz que os vem seguindo Mesmo através da escuridão noturna. Deus, penetrando co’os sagazes olhos Pelo pilar de fogo e argêntea nuvem, No mau atenta, o espírito lhe aterra, Dos altos carros lhe espedaça as rodas. O chefe hebreu, por indução divina, Já sobre o Roxo mar a vara estende... Eis separam-se as ondas; seca estrada Por entre muros de cristal se alonga: Por ela se encaminha o povo eleito, E, dele após, de Faraó as turmas. Mas, tanto que Moisés na oposta praia Salvos os seus contempla, ergue de novo A vara portentosa sobre as vagas: Logo obedientes a juntar-se tornam, Do Egito sepultando em seus abismos O exército e de guerra um trem imenso. De Deus a gente a Canaã caminha: Não toma o chefe a conhecida estrada. Mas por largo deserto vai cortando, Temendo que, inexpertos de batalhas Os seus, coçados de imprevista guerra Que os íncolas brutais fazer podiam, De novo para o Egito não voltassem Antes querendo servidão inglória Do que valentes esgrimir as armas (Que existência pacífica preferem Plebeus e nobres às guerreiras lides, Se da glória o furor os não inflama). Pela demora no deserto extenso, De um próvido governo o bem ganharam, Nas doze tribos eleição fazendo Do supremo senado que os dirija Conforme as leis que promulgadas fossem. Lá desce o Eterno do Sinai ao cume, Que obumbrado de nuvens estremece; Rudos bramam trovões, fuzilam raios, E das trombetas o clangor estruge: Porém, como dos homens os ouvidos Não podem do Imortal coa voz tremenda, Pedem-lhe que Moisés ao monte suba Donde, cessado o horrível aparato, Sua augusta vontade lhes transmita. Deus os ouviu: Moisés as leis lhes trouxe; À justiça civil umas pertencem; Outras regulam os sagrados ritos, Mostrando por simbólicas figuras A prole que esmagar deve a serpente, E por que meios terminar consiga A cabal redenção da humanidade. Assim os homens saberão que acesso, Sem ter intercessor, em Deus não acham. No entanto o hebreu ilustre desempenha Tão alto encargo que há de no futuro Ser de mais elevada jerarquia. Ele a proclama, e todos os profetas O tempo contarão do grão Messias. Assim que as leis e os ritos se executam, Cheio de gosto quer o Onipotente Colocar entre os homens que o veneram, Tabernáculo seu; morar se digna Entre humanos mortais o Deus Eterno. Magnífico santuário por seu mando, De altivo cedro se fabrica e doura: Dentro uma arca se põe, e dentro da arca Vão as tábuas-da-lei, o pacto augusto: Sobre ela feito de ouro, e sendo erguido De dois brilhantes querubins nas asas, Tem da propiciação o trono assento: Ante ele sete lâmpadas cintilam Do zodíaco em forma, afigurando Os planetas que no éter luz espalham: De dia sobre a tenda uma ampla nuvem, De noite ígneo esplendor, hão de avistar-se, Guardas perpétuas da arca sacrossanta. Pelo anjo seu dest’arte conduzidos, Chegam por fim à prometida terra. Travaram cem aspérrimas batalhas, Venceram reis e conquistaram reinos: Ficou por todo um dia o sol parado, Sustando à noite o costumado giro. — “De Gabaon por cima, ó Sol, detém-te! “E tu, no vale de Aialon, ó Lua, “Té que vença Israel!” — À voz de um homem Obedecem do dia e noite os astros. O neto de Abraão, de Isaac filho, Israel se chamou; e o mesmo nome Foi conferido à descendência sua Que à brava Canaã lançará ferros: Porém... entrar pelos detalhes todos Mui longa narração fora por certo.”
Aqui Adão interrompeu o arcanjo: “Celeste mensageiro, que iluminas De meu turbado entendimento as sombras, Tens-me gratos sucessos revelado, Principalmente os que respeito dizem A esse justo Abraão e à prole sua. Eis a primeira vez que em mim contemplo A vista clara, o coração tranqüilo: A minha sorte e a da progênie humana Tinham minha alma em dúvidas perplexa; Mas vejo agora o dia em que ditosas Serão as gentes por bênção do Eterno, Graça que eu não mereço, eu que insensato Por vias proibidas quis meter-me Na indagação de proibidas coisas. Contudo, não entendo por que a gentes, Com quem na terra Deus morar se digna, São dadas tantas leis e tão diversas: Muitas leis é sinal de muitos crimes; E como pode residir o Eterno Com gentes de tais crimes empestadas?”
“É certo” (diz Miguel) “que o crime entre elas Existirá porque de ti nasceram: Foram-lhes dadas leis para indicar-lhes Sua depravação que, não obstante, Contra as leis os pecados lhes promove. Verão que as leis descobrem os pecados, Porém que removê-los não conseguem; E que não podem de per si os homens Das leis cumprir as máximas profícuas, Não podendo também por si salvar-se. Das reses pouparão por isso o sangue Como expiação de inútil valimento; E entenderão que sangue mais precioso É que expiar poderá culpas humanas, Por pecadores padecendo o justo. Acharão, se com fé a acreditarem, Na retidão do justo um pleno auxílio Com que às iras do Eterno satisfaçam, E a doce paz alcancem da consciência, Que as leis e os ritos aquietar não podem. Foram portanto as leis aos homens dadas Para os dispor a entrar, lá quando volva O destinado círculo dos tempos, Num pacto mais augusto, indo ensinados Dentre as sombras dos símbolos confusas Para o fulgor da nítida verdade; Da carne, para o espírito eminente; Da dura imposição de leis restritas, Para a livre acepção de imensas graças; Da obediência servil, fruto do medo, Para a atenção filial que o amor inspira; E das obras da lei, feitas por força, Para obras a que a fé persuade e guia. Muito de Deus será Moisés amado; Mas, da lei sendo só simples ministro, Não levará a Canaã seu povo. Tal regalia gozará Josué, Que Jesus os gentílicos nomeiam, Havendo ele tomado o cargo e o nome Do que há de suplantar a hostil serpente; E, reduzindo ao bom caminho os homens Do Mundo no deserto vagabundos, Há de salvá-los no descanso empíreo. Na prometida terra colocados Por longo tempo morarão felizes; Mas, quando pelos nacionais pecados For a pública paz interrompida, Inimigos o Eterno induz contra eles. Contudo, vendo a penitência sua, Protege-os, salva-os dando-lhes juízes E logo reis que próvidos os mandem. Grande em piedade, grande em valentia, O rei segundo alcançará promessa De que seu trono real durará sempre; Hão de cantar as profecias todas Que um filho nascerá da régia estirpe De David (este o nome do monarca): Hão de todos crer nele os povos do Orbe, E Prole da Mulher hão de chamar-lhe: Profetizado a ti, também tal dita Tem Abraão, que reconhece nele O redentor das gentes inegável; Profetizado aos reis, que em série longa O devem preceder, o último deles Será, por ser eterno o seu reinado. O filho de David que ao pai sucede, Em sapiência e riquezas tão distinto, A arca de Deus porá num templo augusto Té ’li oculta em pavilhões errantes. Seguem-se-lhe outros reis: do Mundo os fastos Parte maus, parte bons, hão de escrevê-los; Mas a lista dos maus será mais longa. Hão de estes cometer enormes culpas E entre elas a nefanda idolatria, As quais, somadas coas dos povos, tanto De Deus enfadarão as justas iras Que em abandono os deixará, expondo Seu reino, a corte sua, o excelso templo, A arca divina, os utênsis sagrados, À presa e opróbrio da cidade altiva, Cujos muros e torre presunçosa Tu mesmo viste em confusão deixados, Por isso de Babel tomando o nome. Setenta anos em duro cativeiro Hão de ficar ali, que Deus o manda: Recordando depois o pacto e a graça Que jurara a David, tão permanentes Como os dias do Céu, piedoso os livra Dos reis influindo que sair os deixem. Ei-los que da alta Babilônia partem: Edificam de novo o sacro templo, E por um tempo prosperar conseguem Vivendo em mediania moderados. Porém, crescendo em número e riquezas, Fazem-se turbulentos: a discórdia Teve entre as aras a explosão primeira; E esses homens, a Deus e à paz votados, Dão da carnage e da anarquia o exemplo. Desacatando de David a prole, Despojam-na do cetro, e desonrados Em estrangeiras mãos o depositam. Convinha assim, para nascer excluso De seu jus o Messias verdadeiro. Contudo, o nascimento lhe proclama Clara estrela, no Céu não vista nunca, E do Oriente conduz os sábios que instam Em buscar do grão Rei o pobre albergue, Para com reverência lhe ofertarem De incenso e mirra, e de ouro, amplos tributos. A zagais, que de noite alerta andavam, Um anjo mostra onde recém-nascido Achariam do Mundo o Rei supremo. Ao vê-lo alegres correm, e de um coro De anjos, formado em esquadrão brilhante, Escutam este cântico solene: — “Por Mãe teve uma virgem sacrossanta; “É seu Pai o poder do Onipotente: “Há de subir ao trono hereditário; “A todo o Mundo seu império abrange; “Os Céus inteiros enche a sua glória.” —
Disse. Eis Adão, regado havendo dantes Com puro pranto de aflição as faces, Em pranto de alegria então se inunda, E com palavras tais por fim a exala:
“Profeta dos mais prósperos sucessos, Fixas tu minhas altas esperanças: Agora às claras vejo, tendo ansioso Té hoje em vão cansado o pensamento, Por que o libertador da espécie humana Seria Prole da Mulher chamado. Salve, Mãe Virgem, puro amor do Eterno! Terás origem nas entranhas minhas; No teu ventre a terá de Deus o Filho: Desta maneira Deus unes co’os homens. Seu estrago total com dor terrível Certo agora esperar deve a Serpente. Onde e quando será essa batalha? Com que ferida o vencedor augusto Prostrará desse monstro as bravas iras?”
“Dessa batalha” (diz Miguel) “não julgues Como de um duelo ou de locais feridas, Nem que homem vai fazer-se o Filho Eterno Para arruinar melhor o teu contrário. Assim não pode ser Satã vencido: A queda que sofreu da empírea altura Foi o estrago maior que ter podia; Mas não lhe impede que perverso te abra A ferida de morte: o grande Nume, Teu salvador, virá depois fechá-la, Não de Satã destruindo a própria essência Mas sim as obras com que tenha ervado A ti e a toda a descendência tua. Conseguirá seu fim, cumprindo exato De Deus a lei sagrada que infringiste, Dada sob pena de infalível morte, — E sofrendo essa morte que lançaste Sobre ti, sobre tua inteira prole, Pela infanda infração que cometeste. Eis o só modo de aplacar do Eterno A tremenda justiça inabalável. A lei se acinge a vítima divina Por obediência e por amor levada; Também só por amor fizera o mesmo. Suportará teu áspero castigo; Há de sacrificar-se generoso A vida desonrada, a morte infame, Dest’arte recobrando a vida a todos Que em sua redenção acreditarem, Não conseguida pelas obras deles (Posto que à lei cingidas se executem), Porém só pelos méritos imensos Da vítima sagrada. Entre mil ódios Tendo vivido, prendem-no ultrajado, Julgam-no por blasfêmias e ignomínias, Sentenciam-no à morte, e em cruz alçada Mesmo os seus próprios nacionais o pregam. Morre ele para dar aos outros vida: Na sua mesma cruz pregar consegue Teus imigos, a lei que te é contrária, E as culpas todas da progênie humana: Não mais hão de danar assim quem creia Remido ser por este sacrifício. Morre Deus, — porém vivo eis que ressurge: Sobre ele a morte pouco tempo exerce Usurpado poder: antes que aponte A alva terceira, da manhã os lumes Vê-lo-ão erguer-se da marmórea campa Muito mais belo que a brilhante aurora. Coa morte paga do homem o resgate: Preciosa morte que dá sempre a vida A quem, quando lhe é dada, a não despreza, E abraça tão grandioso benefício Com fé que de obras suas se acompanha! Este ato divinal desfaz, anula A sentença que à morte te condena, Com que perderas para sempre a vida Se morresses no grêmio do pecado; Esmaga de Satã a altiva fronte; Poderoso lhe oprime a enorme raiva, Pondo o Pecado e a Morte em dura ruína (Os braços principais do rei das trevas). Eles os seus farpões na frente imunda Hão de cravar-lhe com mais fundo estrago Do que o da morte temporal ferindo O vencedor e os que remiu seu sangue, Nos quais a morte parecida ao sono É doce entrada para a vida eterna. Nem muito tempo se demora no Orbe, Depois de ressurgido, o Nume-Filho: Aos discípulos caros aparece Que sempre em sua vida o acompanharam; O encargo lhes impõe que aos povos todos Ensinem tudo que aprenderam dele, Assegurando-os que obterão de certo A salvação se nela acreditarem Recebendo o batismo de água pura, — Cerimônia que os limpa do pecado, Dispõem-nos para venturosa vida E para desprezar da morte os golpes, Resignação humilde lhe ofertando, Mesmo aos do Redentor sendo igualados. Hão de assim doutrinar os povos todos. Desde esse dia a salvação pregada Não será de Abraão somente aos filhos, — Mas também dele aos que na fé viverem, Seja qual for a terra que habitarem: Serão desta maneira as nações todas Na prole de Abraão abendiçoadas. Ao Céu dos Céus então o Nume-Filho Tem de subir nas asas da vitória, Teu inimigo e o seu vencendo no éter: Nas diáfanas regiões há de encontrar-se Coa Serpente infernal, tirano delas; E ali, mesmo através de seus domínios, Há de envolta em cadeias arrastá-la, Deixando-a logo confundida e inerme. Entra dali pelos umbrais da glória E toma, à destra do Imortal, o assento Que, muito acima dos mais altos tronos, Ocupara desde eras sem quantia. Depois, lá quando no prefixo prazo For dissolvida a máquina do Mundo, Ele irá, de poder e glória cheio, Justiçoso julgar vivos e mortos: As culpas punirá da turba infida E premiará a multidão dos justos, Recebendo-os na dita sempiterna Ou no Céu ou na Terra, que em tais tempos A Terra tem de ser um Paraíso Mais delicioso do que é este do Éden, Com mais ditosos dias realçados.”
Disse, — e fez pausa, como demonstrando Ser aqui a grande época do Mundo.
Maravilhado e cheio de alegria Nosso primeiro pai assim lhe torna:
“Ó bondade sem fim, bondade imensa! Tiras de tanto mal um bem tamanho! De muito se avantaja este prodígio Ao que na Criação primeiro obraste Quando a luz dentre as trevas extraíste! Não sei se me desonre ou se me ufane Do meu pecado, ao ver que dele surge Mais glória para Deus e o bem dos homens, — Ao ver que ele mostrou no Onipotente Dos homens em favor bondade suma, E a graça muito superando as iras. Mas dize-me: — se aos Céus de novo sobe O Salvador, o que será dos poucos Que fiéis ficarem entre a grei infida, Inúmera e contrária à sã verdade? Então quem ousará da fida gente A defesa tomar ou ser seu guia? Se tão crus com o Mestre procederam, Co’os discípulos seus serão mais brandos?”
“Não” (diz o arcanjo); “mas o Nume-Filho Mandará do alto Empíreo, aos seus, conforto, Do Pai promessa, o espírito divino Que nos seus corações fará morada: A lei da fé ali há de escrever-lhes; De intenso amor os encherá que os guie Pelo caminho das verdades puras; E há de muni-los de constância heróica Para arrostarem, para destruírem Os assaltos e as armas do ígneo monstro: Tanta há de dar-lhes valentia na alma Que, desprezando a morte e seus horrores, Uma e mil vezes, encherão de assombro Todos os mais cruéis de seus verdugos; Assim consolações de gozo excelso Hão de as ânsias pagar-lhes do martírio. Antes de entrar nas batizadas turmas O espírito divino enche primeiro Os Apóstolos santos, e os incumbe De pregar o Evangelho aos povos todos: Dotá-los-á coas prodigiosas prendas De falar quantas línguas haja no Orbe, E de fazer quantos milagres tenha Defronte deles feito o Mestre-Nume. Inúmeros prosélitos dest’arte Há de ganhar cada um, que ovantes queiram Notícias receber do Empíreo vindas. Depois que o sacro ministério cumpram, De seus dias bem finda a grã carreira, E seus dogmas e anais deixando escritos, Serão heróicas vítimas da morte. Porém (como eles d’antemão disseram) Em seu lugar virão à grei pastores Que, tornados em lobos furibundos, Farão servir os celestiais mistérios A vis conluios de ambição e ganho Para interesse próprio dirigidos; Que por superstições à fé contrárias E por sutis tradicionais embustes, Corromperão a límpida verdade Achada pura só nesses registros, Posto que só os bons ali a entendem. Faustos, empregos, títulos buscando, O temporal poder hão de juntar-lhe; Mas com sagaz hipocrisia inculcam Que no poder espiritual se encerram: Hão de querer possuir como exclusivo O espírito de Deus, que aos crentes todos Foi igualmente prometido e dado. Por essa pretensão, que os Céus insulta, As leis espirituais, desacatadas, Do temporal poder co’o férreo auxílio, Hão de as consciências arrastar por força: Mas ninguém obrigado assim se julga As leis cumprir pela violência impostas, — Nem há de crer que o espírito divino Assim nos corações as tem gravado. A liberdade e a fé, que por essência Inseparáveis são, presas ao jugo Deixarão de existir; e seus santuários, Que a livre crença de cada um sustenta, Hão de cair com base em crença de outrem: Da consciência e da fé contra os ditames Haverá muitos que ousem orgulhosos Pretensões de infalíveis arrogar-se: Nascem daqui perseguições nefandas Contra os que persuadidos perseveram Na adoração do espírito e verdade; E os mais, que muito em número os excedem, Satisfazer à religião opinam Com cerimônias vãs, com rito externo. Ferida então co’os dardos da calúnia Foge a verdade, e raramente vistas Entre os homens serão da fé as obras. Assim bom para os maus, aos bons adverso, Gemendo sob o peso das maldades, Tem de ir o Mundo até que lhe apareça O dia de alto alívio para os justos, E de vingança em dano dos perversos: Nele “a Progênie da Mulher” (que dantes Anunciado te foi entre mistérios E prometido como teu socorro, Mas que teu salvador vês hoje às claras) Torna a descer ao globo, — e no éter amplo, Todo adornado coa paterna glória, Vê-lo-ão talhar das trevas o tirano E as pervertidas turmas que o seguirem. Depois, tendo a matéria conflagrada Obtido a sua prístina pureza, Dela tem de formar o Nume-Filho Novos Céus, nova Terra; e infindos tempos, Que paz, justiça e amor, terão por bases, Darão de ovante dita eternos frutos.”
Disse o anjo. E Adão por último responde: “Como, empíreo profeta, em breves rasgos O transitório Mundo e os tempos todos Abranger té seu termo conseguiste! O mais é tudo Abismo, Eternidade, Onde alcançar não pode a vista humana. Comigo muito em paz, mui doutrinado Daqui parto, — de si levando dentro Este argiloso vaso em que consisto Quantos conhecimentos nele cabem: Aspirar mais além fora loucura. Sei de hoje em diante que me cumpre à risca Obedecer a Deus, com susto amá-lo; Portar-me sempre como estando ante ele; Ouvir-lhe a voz que soa íntima na alma; Confiar só nele que piedoso estima De suas mãos os portentosos feitos, Que coa força do bem o mal destrói, Que faz com poucos meios coisas grandes, Que pelos fracos aniquila os fortes, E que por meio de simpleza humilde Confunde a fátua ciência dos mundanos. Sei que sofrer por sustentar verdades É valor que me ganha alta vitória, E que os olhos do justo a morte encaram Como porta por onde entrar lhe incumbe Na vida tão ditosamente eterna. Essas lições me deu co’o próprio exemplo Esse meu Redentor sempre bendito”.
Por último também o anjo lhe fala. “Como ditames tais tens aprendido, Da sapiência tocaste o erguido cume. Nem julgues que mais alto te elevaras Se por seus próprios nomes conhecesses Todos os anjos, as estrelas todas, Tudo que há de recôndito no Abismo, Todas da Natureza as grandes obras Que Deus formou nos Céus, ar, terra e mares, — Se fossem tuas as riquezas do Orbe, Se com mando absoluto o governasses. Mas, ao que sabes, ajuntar te cumpre Puras ações que bem lhe correspondam, Fé, bondade, paciência, temperança, E amor que no futuro há de chamar-se Caridade, a primeira das virtudes. Não sentirás assim deixar este Éden; Antes sim possuirás dentro em ti mesmo Um muito mais ditoso Paraíso. Mas desta altura, donde viste tanto, Desçamos desde já, que as horas chegam De partirmos daqui: observa as guardas Que acampadas deixei naquele monte E que esperando estão a voz de marcha; Olha como por diante delas fulge, Em sinal de partida, a ardente espada Pelo amplo Céu vibrando furibunda; Demorar-nos aqui não mais podemos. Vai, Eva acorda; sosseguei-lhe a mente Com sonho grato que mil bens lhe agoura, E para humilde submissão dispu-la: Dize-lhe em próprio tempo o que me ouviste, Mormente o que convém para firmá-la Na fé da Redenção que aos homens todos Prodigaliza de seu sangue um germe, Que “Prole da Mulher” será chamado. Oxalá que ambos por extensos dias Vivais em fé unânime; a tristeza Dos males feitos aliviai coa idéia De que virão a ter um fim ditoso.”
Descem do monte. O pai da prole humana Logo à ’lameda vai onde dormindo Eva ficara, mas que achou desperta. Ela o recebe. E assim não triste fala:
“Sei donde vens e sei onde ir te cumpre; Também presente está no sono o Eterno; Os sonhos sempre de algum bem avisam, Quando propícios ele os tem disposto, — E tais os tive desde que angustiada, Opressa de agra dor, fiquei dormida. Guia-me pois; em mim não há demora: Contigo ir-me... é ficar no Paraíso; Estar aqui sem ti... é sair dele: Tu para mim és tudo e os tempos todos, Tu pelo crime meu daqui expulso. Inda que tudo foi por mim perdido, Levo daqui consolação segura Que, posto ser tardia, a não mereço: Será meu filho o que restaure tudo.”
Disse Eva. E Adão ouviu-a complacente; Mas não lhe respondeu, — que deles junto O arcanjo estava já, e fulgurantes Dos querubins os esquadrões desciam Pelo declive do fronteiriço monte, Vindo com silenciosa ligeireza Para a marcada posição guardarem. (Dando ares de meteoro refulgente Ou de névoa que à tarde se levanta Do rio entre paus manso correndo, E vem seguindo ao lavrador os passos Quando para a morada se recolhe).
De Deus a espada à frente da coluna Vem pelo éter brandindo acesa e fera, Qual cometa, presságio de ruínas: E logo com vapores abrasados, Como os que reinam pela Líbia adusta, Começou a queimar tão doce clima.
O arcanjo, que tal viu, toma apressado Pela mão nossos pais que se demoram. Do oriente até à porta assim os leva; E, chegando à planície que se alonga Fora do Éden, deixou-os e sumiu-se.
Olhando para trás então observam Do Éden (há pouco seu ditoso asilo) A porção oriental em flamas toda Debaixo da ígnea espada, e à porta horríveis Bastos espectros ferozmente armados.
De pena algumas lágrimas verteram, Mas resignados logo as enxugaram.
Diante deles estava inteiro o Mundo Para a seu gosto habitação tomarem, E tinham por seu guia a Providência.
Dando-se as mãos os pais da humana prole, Vagarosos lá vão com passo errante Afastando-se do Éden solitários. John Milton, (1608-1674), poeta inglês.
O Paraíso Perdido foi originalmente publicado em dez partes. A obra é redigida em versos não rimados. Uma segunda edição, de 1674, foi reorganizada em doze partes para assemelhar-se à Eneida de Virgílio e com revisões menores. É a que ficou como padrão para as edições e traduções posteriores, inclusive esta de Antônio José de Lima Leitão que preservou os decassílabos e os versos brancos.
O poema trata da visão cristã da origem do homem. Da rebelião e queda dos anjos. Da criação de Adão e Eva. Da tentação por Satã. Da expulsão do Paraíso. Da promessa da Redenção futura.
Imagem: The Garden of Eden with the Fall of Man, Jan Breughel the Elder and Peter Paul Rubens, c. 1615. Scala/Art Resource.
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