
SAARA
Data 06/03/2015 17:06:27 | Tópico: Sonetos
| SAARA
I
Pelo planalto que se descortina Do alto d'essa montanha desolada, Observo a imensidão a além do nada E os caminhos percorridos em vã sina.
Atravesso um deserto: Poeira fina Pedras e areia me têm servido de estrada. Sem embargo, segui minha jornada, Feliz a uns olhos verdes de menina.
Não há oásis, porém, após as dunas, Sim mais dunas e mais dunas de areia! Para, só, vagar sob a lua cheia...
Como em tanta aridez verdes lagunas? Percebo ora miragens esses olhos E quedo entre ruínas e restolhos...
* * *
II
O problema sou eu, apenas eu. Não fosse por mim, mil e uma delícias: Desde antigas maravilhas egípcias Ao siroco do extremo-árido seu.
Mas o deserto sempre pareceu A mim, vazio e inóspito... Fictícias Soavam suas histórias e primícias, Que nada me farão senão sandeu!
Outros conseguirão achar, decerto, Seus oásis, com bons mapas e astrolábios, Para se atravessar todo o deserto.
Eu, porém, fracassei onde os mais sábios Desistiram... E, secos os meus lábios, Vejo o deserto ainda mais deserto.
* * *
III
Tombo exausto nas dunas. Tão fundo!... Vejo as minhas pegadas sobre a areia E observo quão estranho cambaleia O andar de quem às costas traz o mundo.
Quedo à beira da estrada, longe oriundo, C'o corpo e mente entregues ao que anseia O coração. Porém, em vão semeia D'amor todo o deserto, que infecundo.
E louco, como um deus, carreguei vidas. Foi o amor que, apesar das despedidas, Trouxe-me a este deserto de areia e pó.
E, se outras pegadas seguem logo em frente, O andarilho há-de tombar, imprevidente, Diante da condição de ser, tão-só...
* * *
IV
Há anos eu registro a mim memórias D'estas incursões p'lo deserto infindo. São escritos dispersos que eu, reunindo, Fizera não História, mas histórias.
Sim, busquei reviver as antigas glórias Do viajante ao deserto então bem-vindo, Que descrevera o terrível como lindo, Deixando várias notas ilusórias.
Escrevo ora na areia. O mar apaga... De costas ao deserto, miro o oceano E deixo para trás só dor e engano.
Porém, erijo aqui um padrão de pedra Cujo eco faz o mar a cada vaga: -- "N'esse deserto nada jamais medra!..."
* * *
V
"Espírito, onde é tua mãe?" -- " 'Stá morta." "Mas onde está teu pai?" -- "Vive na rua." "Enfim, quem te governa?" -- "Só a lua." "A ninguém tu amaste ou nunca?"-- "E importa?..."
"Que queres tu de mim, pois?" -- "Abre a porta!" "Por quê? Volta p'ra casa!" -- "Quero a tua!" "Não te era o coração vão?" -- "Continua." "Por que ‘inda enganas?" -- "Tão-só me conforta..."
Nada mais disse ess'alma do deserto. Eu acordei e vi as mesmas dunas, Que a todo o vale haviam recoberto.
E as desoladas vilas e comunas, Que tenho ora encontrado no caminho, Apenas dizem mudas: "Vais sozinho..."
* * *
VI
O deserto, perigos e belezas, Promete para quem o atravessar. Todavia, hoje à beira d'esse mar Vejo que tais promessas são vilezas.
Nada é o que parece: As incertezas Me acompanharam logo ao começar. E tudo que tenho ainda p'ra contar Já não são bem saudades, sim tristezas...
O deserto, até o homem obstinado Dobra sob a implacável aridez E o faz tombar, por fim, extenuado.
Vindo à beira do mar uma outra vez, Retorno assim ao início do passado, Deixando ora o deserto ao incauto inglês.
* * *
VII
Frias são estas noites no deserto, Envolvidas que estão p'lo mistério. N'elas, a lua c'os astros do sidéreo E o crepitar d'uma fogueira por perto.
A solidão mantêm sempre desperto Àquele que vigília insone e sério. Repousa n'uma paz de cemitério Sem qualquer companhia ao sonho incerto:
Odaliscas e véus?! Pura ilusão... Estas são reservadas para o sultão E se abrasam em vão com vãos eunucos.
E os dias viram noites ao relento, Repletas da miragem e do vento, Que deixam os viajantes sós malucos.
VIII
É tempestuosa a fúria, grande o dano Do Esp'rito do Deserto que se eleva Dos abismos da mais profunda treva E atravessa o mar com areia e engano.
O siroco, que resseca ao sol romano, Também pelos confins da Terra leva A aridez do deserto e a dor longeva De quem lhe enfrenta o mal ano após ano.
Com que hei-de comparar os fortes ventos, Senão co'a mulher, cujos maus momentos Constrangem p'las ofensas sem limites?...
Sua ira não se aplaca sequer diante Do amor mais puro e raro do expectante, Que espera, vê e sofre nunca quites.
* * *
IX
--"Eu, mulher do deserto, sou quem anda Por abismos e dunas em jornada Infinda, n'essa terra desolada, Que é minha vida sórdida e nefanda."
"Na Torah, nos terreiros sãos de Umbanda Sou a entidade e força que, esfaimada, Devora homens e os lança para o nada, Vagando alhures com loucura branda..."
"Não os mato, tão-só os esvazio. Tiro-lhes toda a fé, esp'rança e amor E deixo-os quando não têm mais valor."
"À noite, eu me transformo em vento frio. Roubo-lhes sono e sonhos p'ra que, sós, Amem eternamente à sua algoz!"
* * *
X
Creio, só e finalmente, na verdade. É ela, e somente ela, quem liberta. E após anos errando p'la deserta Imensidão, eu deixo a insanidade!
Basta de buscar o oásis onde evade O poeta-e-viajante ante a descoberta Das tais lagunas verdes na área incerta Entre a imaginação e a vanidade...
Fugia dos conselhos dos mais sábios, Por crer em mentirosos e vãos lábios, Que vivem omitindo e até mentindo.
Cedo ou tarde o deserto se revela, Porém, em toda a sua árida e bela Insensatez, como um caminho infindo.
Ilhéus - 12 a 23 06 2011 Série com 10 sonetos obsessivos.
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