
DESCASARIO
Data 09/02/2015 19:06:49 | Tópico: Poemas
| DESCASARIO
Lá n’aquele lugarejo -- Que só na memória eu tinha! -- Todas as casas que vejo Têm telhado e varandinha.
Umas sem eira nem beira, Outras, bem perto da linha, Onde a máquina ligeira De muito longe lhes vinha.
Seguindo cidade adentro Logo se chega à pracinha, Que lá chamam de Centro: Capela, venda e biquinha.
Mas, se fores pela estrada Por onde o povo caminha, Mal se começa a jornada E finda a cidadezinha.
Na última casa da rua, Retirada já, sozinha, Boa p’ra seresta e lua, Eu chego logo à tardinha.
Bato à porta. Saúdo até… Se é noite que se avizinha, Chamam p’ra tomar café N’um bom papo de cozinha.
E me contam da obra ao lado -- Coisa d’arrepiar a espinha... -- Contestam todo o lajeado: Pois concreto contravinha!
E que em muito poucos anos, Copiando a da vizinha, Veriam senão enganos Nos recordos que eu retinha.
Mas me ouvem dizer em brasa: --”Se essa rua fosse minha, Não deixava fazer casa Sem telhado e varandinha.”
“Romance de capa e espada, História da carochinha, Despacho de encruzilhada, Crônicas d’El Rey e Rainha..."
“De tudo eu já escrevi, Mais sonetos e modinha Apenas p’ra deixar aqui Sobre aquela escrivaninha.”
“Se a cidade ao casario Ter que já não lhe convinha Perco eu, pois, meu lavradio Que por escrever obtinha.”
“Cultivava as boas letras Que ora perdem por picuinha Ao apagar-me as linhas mestras Com que tanto eu me entretinha”.
“Que dar a posteridade D’essa gente tão mesquinha, Senão a triste verdade: Meu pirão! Pouca a farinha...”
Parto para nunca mais, Guardando da vilazinha Suas casas quase iguais De telhado e varandinha.
Betim - 19 05 2014
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