
Do outro lado do espelho - VII
Data 18/01/2015 21:16:21 | Tópico: Poemas
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VII
Cresci demasiado pequena, absurdamente pequena, para tanto espaço, vi-me ali vezes sem conta, sozinha em plena inconformação, a rezar nem sem bem o quê ou para quê. Nunca gostei de igrejas, o silêncio mastigava-me o medo, os espinhos de Cristo faziam-me lembrar os que me cravaram na inocência. São frias, amplas e os santos de madeira carregam no olhar um doloroso sofrimento, talvez me reveja nos seus olhos. As atrocidades cometidas são sempre as mesmas, repetem-se constantemente; guerras, massacres, fome, doenças. Como se lida com um mundo assim, com o caos, quando se acorda para a vida? Haverá alguma resposta instantânea? Foi o suficiente para sentir vergonha da minha condição humana. Convenceram-me a procurar um médico, assim o fiz. Quando lhe coloquei diversas questões, prescreveu-me três caixas de ansiolíticos. Voltei para casa sem respostas e com uma mão cheia de drogas. A adolescência é tramada, quando não se é conformista passa-se a ser extra terrestre, e a droga é uma puta que nos é servida a qualquer preço. Preferia ser eu a puta do que ser fodida pela “puta” do sistema a julgar-me pela inconformação. Resolvi escolher o meu caminho, fosse qual fosse, seria melhor do que enlouquecer com o número 179 587 135, é isto que somos para o Estado.
(Continua)
Conceição Bernardino – in “do outro lado do espelho” - 2015
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