
O ROSTO DE PANDORA
Data 04/02/2008 14:00:23 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| O ROSTO DE PANDORA
Não adianta se ocultares por entre as sombras da ignorância, pois a minha visão logra a silhueta da tua indelével peçonha. A nitidez das nuanças dos teus traços, ainda que imersos na perfeição da latência, te entrega, sobretudo porque, precisamente, denuncia a diafaneidade que emana da tua traiçoeira matéria: matéria traicoeiramente nojenta. Sim, a fazer os meus olhos depreenderem o exalar do nojo: O nojo da tua presença!
Não, ah, não: é vão te enleares nesse fatuamente seguro novelo de neutralidade qual reside no alfobre epicêntrico do século passado: Pois a perspectiva dos teus contornos suplanta e transpõe as tramas e zilhares de tramas que, hermeticamente, te encobrem. Oh, sim, certamente por seres o adorável ademais insigne promotor da velha “Pax Romana”. Sim, tu és tão forte; sem, contudo, seres mais: mais que a candura da imagem: imagem projetada pelo antivéu qual revela a abundante vileza das lúgubres atitudes onde afloram tuas reais empresas: posto aches que bem resguardadas estejam, assentadas no presunçoso sólio da intangibilidade. Na verdade, a intangibilidade da tua hipócrita nobreza.
Com efeito é o teu rosto que vejo impresso na esfinge do Mercador e Messias qual procede da Plaga de Hamurabi: lá onde jazem as cinzas da glória de que um dia desfrutara o agora espectral Império dos rios Tigre e Eufrates. Sim, te vejo: vejo-te nas charges delineadas pela pena do antológico Martelo de Thor Sim, te enxergo: enxergo-te na face da intransigência de um deus magoado, chafurdado no magma do ódio incitado, que é justamente o fel temerário: te visualizo nele por reconhecer teu sorriso de lagarto. Um sorriso mordaz, agudo, altaneiro e macabro saído da intemperança de ti, cretino carrasco.
Ah, e tudo por que, caralho? Porque queres o cume mais alto do encanto... Porque não queres, de modo algum, deixar passar: Passar a sensa- ção de inefável onipotência que te oferece o bagulho. Queres o gládio. Queres sentar... sentar... repousar... Imortalizar-te no trono do Mundo, onde brevemente não haverá mais nada pra governar...onde nem tu passarás incólume. Onde somente o vácuo será a única coisa que pairará sobre a bruma do ocaso que estará envolvendo o ar do resto de tudo. E tu, que agora reinas graças a lei da maior potência, então, passarás a viver confinado ao epitáfio burilado no túmulo de remotos sóis aniquilados! Oh, que pena, nem mais serás poeira cósmica a vagar errantemente no sempre açambarcador espaço inclemente.
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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