
QUANDO ERGO A ESPADA QUEBRA-SE A MÃO
Data 26/12/2014 17:41:05 | Tópico: Poemas
| QUANDO ERGO A MÃO QUEBRA-SE A ESPADA
Quando ergo a espada quebra-se a mão!
Uma intensa chuva de pedras Bombardeia dos céus sem piedade A marcha triunfal dos derrotados. A morte invade as ruas e clama desordem…
Quando levanto a voz fico afónico!
A lava em cinza arrasa montanhas! O odor nauseabundo dos cadáveres é um vale! A lepra passeia-se de gravata pelas cidades…
Num céu sem cor Num lago sem água Manifestam-se os caminhos que não percorri… Em cada parede pincelada de grafiteis Leio o nome de um pássaro sem asas Que aspira alçar voo numa esquina…
Todo o dia é um lençol de retalhos… Os desejos aludem ao passado Que se enrola á volta do pescoço Como forca! O saber que se sabe é já perjúrio!
Amotinam-se as pedras das casas derrubadas! A multidão vive numa imensa agonia… Se falam da esperança é porque não existe. A esperança não existe! As palavras são balas de pistola Disparadas contra a consciência Da incredulidade.
Abrem-se as comportas da raiva! Caminham sombras pelo desatino de ruas de lama Pedras soltas E lixo. Todo o horizonte distorcido e nublado é um sol! Os penachos incentivam às pequenas caridadezinhas Para se redimirem do fracasso de nada serem. A fúria e o ódio caminham de mãos dadas pelos jardins Escrevem o mote de agoniados poemas estéreis Coleccionam sentimentos vazios de sentir… A lua decalca a sombra de um abutre no alto da escarpa Geme o faminto estômago que procura a presa Com que saciará a fome de viver. Se por ventura um cadáver lança um apelo Exigindo o fim de uma existência moribunda e satânica Logo o lume saído da boca do dragão Lhe arranca o coração ou o que resta dele Atracado á necessidade irresistível de ser engrenagem.
Não há morte que resista a tanto abstracto! A fisionomia turva dos sobreviventes Acalenta no ócio incrustado nos ossos Miragens de paraísos suspensos entre as horas… Nada fazem Para além de perturbarem as sombras Projectadas na calçada carente de áureas e de vida. Não deixam de ser sombras Inertes e esquálidas À espera que a misericórdia do pássaro vadio Lhe venha sugar a réstia de oxigénio Que ainda se debate nos alvéolos!
Pelos jardins O futuro marcha no mito das folhas da velha árvore da sabedoria Recolhe da seiva o veneno com que alimenta A esterilidade profunda e inglória. Apenas os vampiros se banqueteiam numa ceia de sangue e almas Fundidas a laser no abandono do desespero.
As crianças já não dormem… As crianças já não dormem Decepadas as veias Mordem as pedras e nunca choram… As crianças já não choram! O futuro é o pesadelo dum sono acordado! Já urge a noite… Já falta a lua… O sorriso existe como pêndulo dentro das artérias cerradas… A verdade é uma gazua Sem madeira para furar!
Uma aragem interroga A lucidez que resta:
Agora que as dores descobriram a felicidade é que as contestais? Agora que os crucifixos se enfeitaram de pedrarias é que os odiais? Agora que os espinhos se envaideceram é que os condenais? Deixai a vigília dos punhais rondar as casas Porque elas são feitas de culpas e horrores Nada têm que ver com quem nelas habita… Quem as domicilia não são pessoas São nacos de qualquer coisa e violência Pois por dentro de tudo o que nunca serão Talvez encontrem uma migalha de vazio No espaço que nunca foi preenchido por nada! Deixai a vergonha varrer ruas, praças e avenidas Porque ela não é mais que a manifestação da inexistência Propósito alquímico para se subir ao pedestal do status Tão grandioso quanto imprestável Só para deleite do olhar daqueles que nada esperam Só para deleite do vício estático e desocupado De aguardar que o nevoeiro se transforme em Midas! Deixai o mundo morrer como pode! É mais fácil esculpir a morte nos rostos das cabras Que descobrir uma agulha de sensatez nas palavras dos homens! É mais fácil encontrar um ícone de aço esculpido num bar Que desvendar a verdade no puzzle irracional das atitudes dos homens! Dizei-me – Para que quereis decifrar tais enigmas?
Enquanto rasgo o poema a terra abre as pernas Para o perpétuo filho do apocalipse da razão. As sementes clamam por justiça No alvorecer dos braços da nova civilização… Se os passos dados foram arcos de triunfo Foi porque uma luz os iluminou. Por dentro da desgraça O sol insiste em incendiar Os corações de pujança e alegria… Para que quereis decifrar tais enigmas?
O vento ruge de novo:
Para que quereis decifrar tais enigmas? A rudez dos instintos manifesta-se na rudez das atitudes Quando sepultais mistérios e segredos acumulados A tantas algemas luz do dia de hoje. As planícies tornam-se vales imensos Onde o orgulho constrói labirintos e escava túneis Crente numa continuidade lamacenta e repetitiva Daquilo que foi sem mudança e que será! É aqui que é. Nem bom nem mau. Apenas frívolo! Aconchego das terríveis justificações que vos acobardam Turbilhão de precárias indecisões E insensatez! Agora que os lamentos se elevam como éter acima da lua (Porque ainda representam um livro aberto Quando todas as dúvidas renovam de gritos as consciências) É que a rouquidão fervilha na aspereza de um aflito! O ácido dos mais instintos recobra de tanta insanidade… Porque não sois felizes? Tudo o que aspiraste por mundo não é o que tendes? Tudo o que construíste não é o que está construído? Tudo o que destruíste não está destruído? Tudo o que invejaste não é o que possuís? Então…? Será que o mar da vaidade alguma vez subirá a montanha da inveja? Pois que chegue a vós em forma de esqueleto O cheiro alucinante desse sonho nómada Que erra pelo mundo à procura de um ser Onde possa ganhar forma Desvendar os mistérios inexplicáveis Das razões concretas que nunca o serão!
Quando bater à porta do futuro Vestido de ideais e sorrisos Enfeitado de plumas e segredos de cristal Todos os compêndios escondidos dos brilhantes olhos Farão esvoaçar as páginas pelo deserto dos inconformados Os poetas definirão com precisão as miragens Numa ode extensa lírica e real E o globo terá a dimensão universal de uma solução… Desvendar-se-ão os grandes mistérios da poesia!
Breve… Breve chegará o dia!
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