
Aqueronte
Data 03/11/2014 16:07:06 | Tópico: Poemas
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De um lado anjos, demônios e espíritos de personagens que crio. Do outro lado do rio, as patifarias caras aos poetas:
Corações túrgidos, saudades obesas, desejos raquíticos e uma bandalheira de existencialismos.
- "Poeta, sou isso e aquilo e me vejo Ésquilo no espelho".
Ouço essas verdades, na canoa-pena por onde flutuo no rio que vai o meio.
Ao meio dessas margens de temas de versos, que são raízes de árvores-poemas inscrustadas na borda do rio da minha inspiração.
O rio é saliva, choro e seiva da musa de pernas abertas na cachoeira do que penso ser fim desse rio de vida que desaguará no decorrer de minha partida dentro da vagina da musa, embebecida.
- "Parta agora!" - gritam sátiros e demônios, a tirarem a roupa dos anjos para a tertúlia lascíva que costumam praticar na banda de lá.
- "Pule já dessa canoa, essa vida não é boa. Escreva um verso de matar venha, para sempre, conosco gozar!"
A musa soluça um peixe que pula a canoa, perdido entre suas próprias bandas. É só uma caveira de peixe.
- "O poeta pensa na morte, mas também no corte da sensação, o sentir a vida, mesmo que torta, mesmo ferida, os olhos de quem amará, sempre os olhos, as janelas e certamente, o suspirar..."
Ninfas e ninfos mostravam seus dedos macios para fazer-me cafuné. Indicavam a grama como a nossa cama, num jardim de todos os frutos.
- "Não sejas bruto! Escrevas um verso de fé, e esteja sempre de pé esperando o amor chegar".
A musa dá um riso alto. Um raio corta o céu.
Olho pra cima, talvez acima, há outra banda!
Nem de lá, de cá nem na canoa.
E ao tempo que penso na saída, vem alado, com asas negras, um verso soprado da boca do Phenex - um assovio que calou até o trovão.
O peixe caveira tomou vida, criou patas, pés e mãos. Saiu andando por uma das bandas (qual delas, não digo, não).
Eu, pego na ponta do assovio, saio carregado, suspenso e o rio o tempo, a vida, esperam eu retornar.
Quando eu pegar a pena, subir à canoa, e ter de navegar... lá estarão, todos eles, à margem de mim, a gritar.
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