
Quem sou eu? [vulgo poema "bodarrada"] (Luiz Gama)
Data 30/10/2014 16:53:03 | Tópico: Poemas -> Sociais
|  “[...] Eu bem sei que sou qual grilo De maçante e mau estilo; E que os homens poderosos Desta arenga receosos
Hão de chamar-me — tarelo, Bode, negro, Mongibelo; Porém eu que não me abalo, Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente, Pondo a trote muita gente. Se negro sou, ou sou bode Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta, Pois que a espécie é muito vasta. Há cinzentos, há rajados, Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos, E, sejamos todos francos, Uns plebeus, e outros nobres, Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes, E também alguns tratantes Aqui, nesta boa terra Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas, Ricas Damas e Marquesas, Deputados, senadores, Gentis-homens, veadores;
Belas Damas emproadas, De nobreza empantufadas; Repimpados principotes, Orgulhosos fidalgotes, Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais, Gentes pobres, nobres gentes Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança Fulge e brilha alta bodança; Guardas, Cabos, Furriéis, Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais, Rutilantes Generais, Capitães-de-mar-e-guerra, — Tudo marra, tudo berra —
Na suprema eternidade, Onde habita a Divindade, Bodes há santificados, Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos Também há muitos bodinhos... [...]”
Luiz Gama, poeta e trovador abolicionista (1830-1882).
Ler mais: A poesia libertária de Luiz Gama http://meuartigo.brasilescola.com/lit ... -libertaria-luiz-gama.htm
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