
O Homem que lê (Rainer Maria Rilke)
Data 20/10/2014 21:59:18 | Tópico: Poemas -> Dedicatória
|  Eu lia há muito. Desde que esta tarde com o seu ruído de chuva chegou às janelas. Abstraí-me do vento lá fora: o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos que se ensombram pela profunda reflexão e em redor da minha leitura parava o tempo. - De repente sobre as páginas lançou-se uma luz e em vez da tímida confusão de palavras estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já as longas linhas, e as palavras rolam dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins transbordantes, radiantes, abriram-se os céus; o sol deve ter surgido de novo. - E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança: o que está disperso ordena-se em poucos grupos, obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas e estranhamente longe, como se significasse algo mais, ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro, nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim e aqui e mais além nada tem fronteiras; apenas me entretenho mais ainda com ele quando o meu olhar se adapta às coisas e à grave simplicidade das multidões, — então a terra cresce acima de si mesma. E parece que abarca todo o céu: a primeira estrela é como a última casa.
Rainer Maria Rilke (1875-1926), poeta alemão, in "O Livro das Imagens". Tradução de Maria João Costa Pereira
Imagem: Carl Spitzweg, monge estudando.
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