
18- A Confissão
Data 03/10/2014 17:49:49 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| CONFISSÃO
Eu me confesso a Deus, Deus que está nos céus, Que é amor, Que é perdão. Porque me puseste, Senhor, Esta dor enorme Em meu coração?
Tu e eu Sabemos bem Que esta dor É de amor, Mas não daquele amor Que Tu pregaste, Ensinaste, Falaste, Louvaste Praticaste.
É um amor diferente daquele Que em mandamento transformaste: «Amai-vos uns aos outros Como Eu vos amei»
E eu sei O que é esse Teu amor.
Dentro de mim Há dois amores: O que Te tenho E o que tenho a ela. São distintos, Mas são os dois famintos:
Um, por Ti que me dás, deste e darás tudo: A vida, A alegria, A família, Os amigos, o sol e as estrelas A lua no céu E ainda – não te esqueças Que me deste Aquela criatura, Toda bela, toda formosura Toda primavera e linda.
Mas este amor Tu condenas.
Deus, Sabes bem Que quando meu dia está finando Destas duas coisas me estou sempre lembrando: De Ti e dela.
A Ti que és meu Deus e meus Amigo A Quem eu falo e digo Deste amor, de facto e pensamento. E rezo por mim E peço por Ela Para que seja feliz, Para que encontre a felicidade Embora, se o quiseres, longe de mim. E embora ela me deixe A horrível dor da saudade, E ainda que distante, Sempre amante, Sempre impossível Com seu belo corpo inatingível Que em pensamento Só é e será meu Porque foi o meu céu. Tu, ela e eu, Todos sabemos que és perdão: Perdoaste ao ladrão, Ao filho pródigo, E a Pedro que Te negou, A Pilatos que Te condenou, Lavando as mãos, À Madalena, Aos que na Cruz Te ergueram, E ao centurião E ainda àquele que com a lança, Trespassou Teu coração.
Perdoa-nos meu Deus, A nós dois, pobres criaturas Que nos amamos e nos demos.
E a vós irmãos? A vós não me confesso, Por uma coisa só: Porque trazeis já pedras em vossas mãos? Para nos julgar? Para nos matar? Alheios e com ódio às nossa dores? Alheios à sublimidade de nossos amores Tão loucos e tão grandes que até tocam os céus?
Um perdão para tal amor Só pode vir de Deus. Se não amastes, não podeis julgar. E se amastes, vós também pecastes. Portanto, não julgueis. Atirai as pedras fora Como outrora. Perante nós, Inclinai a cabeça e olhai o chão. O que ledes? Limpai antes nossas lágrimas de amor, Nesta hora, Cheias de dor, Ferventes e quentes como a lava do vulcão. E tende de mim e dela compaixão.
Tirado do meu livro Recordações
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