
Menino de Rua
Data 04/08/2014 15:21:18 | Tópico: Poemas
| Menino de Rua Espremi o mundo em busca do sumo, mas não achei nem o rumo. Nunca fui na Escola; meu padrasto, faz-me de esmola. E a fome me amola até sentir o baque da cola. Limpo pára-brisas e rezo sem crença. Sou sujo de nascença e de feia presença. (No "tecido social" eu sou a doença, como diz qualquer Dr. Excelência) Peço ajuda à dona-tia-senhora (louca para fugir sem demora) e do seu medo eu lucro um trocado, que logo gasto na "biqueira" ao lado. Da boca sem dente, vem a vontade de ser gente. Da boca banguela vem a vontade de sair da favela. De ter um "cano" na fivela, arroz na panela e até o amor da moça donzela que peregrina em Santiago de Compostela. Do meu nariz escorre suja coriza, do macilento rosto despenca raiva e desgosto. Eu sou o oposto. Sou menino do Brasil e durmo sob o azul-anil até que me acorde o cão-pastor do canil. Levo a vida fugindo de "bala perdida" e da santa caridosa bandida. E sempre escuto: mude de vida! Como se existisse tal saída. Como se aqui, eu estivesse por escolha dessa minha vista caolha. Já lustrei sapatos e calçadas, tomei todas as burguesas "porradas" e não quero acreditar que isso ainda vai retornar. Olham-me como ameaça. Parido por desgraça de uma barriga cheia de cachaça. Mas o que eu queria era ser só mais um. Desses, que não metem medo e a quem se confia um segredo. Desses, que choram pelo Poeta em degredo ou das dores do samba-enredo. É coisa pouca: casa, afeto, comida e roupa. Poder dispensar a caridosa sopa, servida pelo moço que quer o troco: ser um Santo (do pau oco). Pois nessa vida nada se dá. Só se troca. É o medo de acabar numa maloca, vendendo tapioca. Mas agora, SENHOR, licença. O sinal fechou. O esperto não vacilou, mas a moça pequena só me olha com pena. Por isso irá morrer. Não sei assoprar. Só morder. Uso o "estoque" como baliza e o sangue não me horroriza. Sou bicho-fera: se bobear, "já era". Mas não se preocupe meu "bom burguês". Da Policia eu sou freguês e Posseiro em qualquer xadrês. Logo ficarei sob outra tutela, sem velório, coroa e vela. Não deixarei saudades e nem levarei amizades. Irei sozinho na morte, como só, eu fui na vida. Uma rebarba atrevida, dessa sociedade falida.
Dedicado ao Dr. Bruno Baghin, cuja jovem coragem e lucidez renovam a minha esperança.
Procução e divulgação de Pat Tavares, lettré, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de Relações com o Público, Rio de Janeiro, inverno de 2014.
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