
Minha infância (Cora Coralina)
Data 09/07/2014 16:08:54 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| 
Minha infância (Freudiana)
Éramos quatro as filhas de minha mãe. Entre elas ocupei sempre o pior lugar. Duas me precederam – eram lindas, mimadas. Devia ser a última, no entanto, veio outra que ficou sendo a caçula.
Quando nasci, meu velho Pai agonizava, logo após morria. Cresci filha sem pai, secundária na turma das irmãs.
Eu era triste, nervosa e feia. Amarela, de rosto empalamado. De pernas moles, caindo à toa. Os que assim me viam – diziam: “- Essa menina é o retrato vivo do velho pai doente”.
Tinha medo das estórias que ouvia, então, contar: assombração, lobisomem, mula sem cabeça. Almas penadas do outro mundo e do capeta. Tinha as pernas moles e os joelhos sempre machucados, feridos, esfolados. De tanto que caía. Caía à toa.
Caía nos degraus. Caía no lajedo do terreiro. Chorava, importunava. De dentro a casa comandava: “- Levanta, moleirona”.
Minhas pernas moles desajudavam. Gritava, gemia. De dentro a casa respondia: “- Levanta, pandorga”.
Caía à toa… nos degraus da escada, no lajeado do terreiro. Chorava. Chamava. Reclamava. De dentro a casa se impacientava: ” – Levanta, perna-mole…”
E a moleirona, pandorga, perna-mole se levantava com seu próprio esforço.
Meus brinquedos… Coquilhos de palmeira. Bonecas de pano. Caquinhos de louça. Cavalinhos de forquilha. Viagens infindáveis… Meu mundo imaginário mesclado à realidade.
E a casa me cortava: “menina inzoneira!” Companhia indesejável – sempre pronta a sair com minhas irmãs, era de ver as arrelias e as tramas que faziam para saírem juntas e me deixarem sozinha, sempre em casa.
A rua… a rua!… (Atração lúdica, anseio vivo da criança, mundo sugestivo de maravilhosas descobertas) - proibida às meninas do meu tempo. Rígidos preconceitos familiares, normas abusivas de educação - emparedavam.
A rua. A ponte. Gente que passava, o rio mesmo, correndo debaixo da janela, eu via por um vidro quebrado, da vidraça empanada.
Na quietude sepulcral da casa, era proibida, incomodava, a fala alta, a risada franca, o grito espontâneo, a turbulência ativa das crianças.
Contenção… motivação…Comportamento estreito, limitando, estreitando exuberâncias, pisando sensibilidades. A gesta dentro de mim… Um mundo heroico, sublimado, superposto, insuspeitado, misturado à realidade.
E a casa alheada, sem pressentir a gestação, acrimoniosa repisava: ” – Menina inzoneira!” O sinapismo do ablativo queimava.
Intimidada, diminuída. Incompreendida. Atitudes impostas, falsas, contrafeitas. Repreensões ferinas, humilhantes. E o medo de falar… E a certeza de estar sempre errando… Aprender a ficar calada. Menina abobada, ouvindo sem responder.
Daí, no fim da minha vida, esta cinza que me cobre… Este desejo obscuro, amargo, anárquico de me esconder, mudar o ser, não ser, sumir, desaparecer, e reaparecer numa anônima criatura sem compromisso de classe, de família.
Eu era triste, nervosa e feia. Chorona. Amarela de rosto empalamado, de pernas moles, caindo à toa. Um velho tio que assim me via dizia: “- Esta filha de minha sobrinha é idiota. Melhor fora não ter nascido!”
Melhor fora não ter nascido… Feia, medrosa e triste. Criada à moda antiga, - ralhos e castigos. Espezinhada, domada. Que trabalho imenso dei à casa para me torcer, retorcer, medir e desmedir. E me fazer tão outra, diferente, do que eu deveria ser. Triste, nervosa e feia. Amarela de rosto empapuçado. De pernas moles, caindo à toa. Retrato vivo de um velho doente. Indesejável entre as irmãs.
Sem carinho de Mãe. Sem proteção de Pai… - melhor fora não ter nascido.
E nunca realizei nada na vida. Sempre a inferioridade me tolheu. E foi assim, sem luta, que me acomodei na mediocridade de meu destino.
Cora Coralina, In: Melhores Poemas de Cora Coralina; seleção e apresentação Darcy França Denófrio. São Paulo: Global, 3a ed., 2008. 4a. reimpressão, 2011.
|
|