
CRISTINA & ALBERTINA
Data 24/06/2014 21:52:23 | Tópico: Contos
| Era mais uma dessas mocinhas que detestava o nome que os pais lhe deram. Mas, no vilarejo onde nascera, era comum pai e mãe misturarem seus nomes e dar aos filhos o resultado disso: Então, o pai Alberto e a mãe Cristina, deu Albertina. Sua mãe era bem mais nova do que seu pai, uma diferença de doze anos! Cristina foi 'vendida' pelo pai à Alberto, a quem devia uma grande quantia.
Albertina tinha vontade de sair pelo mundo, viajar... Ouviu de um jovem forasteiro, que o mundo era vasto. Pediu ao pai permissão para seguir com aquele rapaz, vindo de terras distantes. Logicamente, o pai não deixou. "Filha só sai de casa, em idade de casar", foi a resposta que o pai lhe dera na ocasião. O forasteiro foi embora, levando de Albertina ainda seu coração...
A mocinha apaixonara-se. Não soube se era correspondida. Chorou escondido dias a fio... Um dia, varrendo o quintal, ainda desanimada, dois pombos apareceram ao seu redor... Era um casal. Albertina ficou triste, olhando o macho e a fêmea, pensando: "Será que um dia, ela voltará? E se voltar, me quererá?"
Quatro anos se passaram e Albertina já contava 20 anos. O pai, havia falecido no ano anterior. Agora era Albertina e a mãe, naquele lugarzinho esquecido do interior...
A situação havia mudado: Com a morte de Alberto, elas não tinham como se sustentar por muito tempo. A mãe e ela, depois de alguns meses mal tinham o que comer. Albertina ia para o quintal como fazia todos as manhãs, e varria, varria... Foi numa dessas, que ela escutou um barulho que vinha da esquina, e apurando o ouvido, entendeu: Chegara ao vilarejo uma caravana, trazendo artistas de teatro. Albertina foi direto conhecer a 'Companhia'. Muita gente curiosa, fazia o mesmo, cercando as carroças.
Desceu de uma delas um homem forte e bigodudo. Anunciando ao povo, um espetáculo para a noite de Ano Novo.
Albertina chegou mais perto e pode reconhecer atrás daquele bigode, o rapaz por quem apaixonara-se anos atrás... Correu para falar-lhe. Ele não se recordava dela. Afinal, também estava diferente: Já não era aquela mocinha de antes, e sim, mulher feita! Entretanto, ao que Albertina puxou conversa, ele foi se recordando... Para surpresa de Albertina, ele se disse apaixonado quando a conhecera. Ela lhe perguntou: "Por que não dissera?"
O homem pegou suas mãos e revelou: Sabia que seu pai não a deixaria ir: Pois eles ainda eram bem jovens. Ele, como homem, tinha muito que conquistar ainda, para poder casar. Preferiu então, manter-se em silêncio, pouparia dissabores para ela... Mas, agora era diferente: Pois Albertina já tinha idade suficiente!
Dias depois, ele pediu a mão de Albertina em casamento para sua mãe. Casaram-se dois meses depois. Albertina finalmente ia conhecer o "vasto mundo" agora... Cristina no entanto, não aceitou o convite da filha: Não quis ir embora com Albertina, o genro e a 'Companhia'.
Em vez disso, passou ela mesma a varrer todo o dia o quintal. Desejando que como os pombos que ali vinham buscar migalhas de pão, um dia novamente, formasse um casal...
Fátima Abreu
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