
Último poema
Data 18/06/2014 16:34:03 | Tópico: Poemas
| Último poema
Que sequem na garganta os dedos As vozes e o canto na boca Que não se acendam velas no escuro Nem se enterrem os medos
Que este tempo já caiu de maduro Por todos os lados da fruta oca Primavera de Praga nos vinhedos
Que se desfaçam os noivados Se mande embora a banda e os convidados E os políticos maltrapilhos do lucro
Que se façam gente os malfadados
Que haja uma rosa sem água Um deserto inteiro num vaso Um doce ruir da fraga E o presente seja um quase nada do acaso
Que haja um cego em desequilíbrio Uma falsa passadeira de peões na estrada Um crime sem castigo servido frio
Que após a morte em nós das crianças Nunca mais soubemos tecer os afectos Nunca mais soubemos as danças Os nossos sonhos passaram a ter tectos
E foi aí, quando nos sobrou só a dor Quando só nos restava a resignação Que o poema jogou a nosso favor E nos cortou a respiração
in: «Os poemas não se servem frios» 2010
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