
Verde Turvo (Parte I) - Dendrospecção
Data 27/05/2014 18:09:34 | Tópico: Poemas
| .
Retorno à copa de antes. Antes que é como ontem apesar de mais longe. Dias tacanhos.
Hora de escrever poesia, mas, vivê-la, sempre. Poesia é dia, todos. Hoje, ontem, até os que não vivi nem vou.
Nem vou falar das flores. Não me digam que não falei. Nem vou falar de dores apesar de serem elas matéria mole de poemas.
O poema físico, rígido, formal, topográfico, e, às vezes, muitas vezes, estúpido.
Ou ridículo, como as cartas de amor.
O homem que passeia com o cão ama o cachorro. Ostentam panças e coleira quando passam por mim.
Fantasiei-me árvore. (cheira-me o cachorro). Árvore que escreve letras com folhas e madeira-casca dura, grossa, grafite. Fito-os.
O cachorro desconfia do disfarce; É que eu cheiro a mato mas não árvore. Capim santo.
A memória do cão é da última árvore que marcou com urina e pensou (Não!) O cão não pensa nada e existe.
Eu quem penso que o cão pensa algo enquanto mija.
Faço do cão homem tanto quanto eu ou o dono que o tem em coleira.
O cão mal sabe sobre ser de alguém ou ter dono.
O cão só sabe a sina de cão e de cheirar árvores falsas e ter memórias de urina.
Antropomorfizo o cão ao falar do cão porque amo o cão e só quero amor ou penso o amor com a forma humana.
Se eu amo a árvore, como poderá ela amar-me em retorno, se eu não pô-la homem, humana?
Eu visto uma pele outra na árvore. eu a disfarço gente e só assim a amo.
No dia que disfarcei-me árvore foi pensando nisso.
Quis saber se, eu, enquanto árvore, mesmo falsa, sabendo-me gente... quis saber se seria capaz de amar-me, gente-falsa-árvore e os inversos.
Amar-me até me acabar de amor por mim.
Até que eu acabe ou talvez me esqueça no disfarce árvore e talvez morra.
.
|
|