
Oração de férias
Data 18/05/2014 11:04:13 | Tópico: Poemas
| Oração de férias Obrigada meu Deus Por estas horas calmas e serenas Por esta solidão feita de sol Por este entardecer todo grandeza Em que meus olhos são meninos cegos A percorrer o mar… A saltitar as ondas… Mais longe… mais longe… até tocar A linha azul do horizonte longo… Obrigada meu Deus Pelos corpos tostados das crianças Que brincam sobre as rochas… (- Tão tostados, Senhor, lembram carvões, jamais incendiados) Indiferentes às ondas que os beijam De olhos tão serenos De risos tão inquietos Que ninguém será capaz de recordá-los Doentes ou mirrados…
É bom vê-los brincar Meninos sãos de olhos transparentes A chapinhar aos saltos Nesses regatos deixados à tardinha Pela maré que vai…
Obrigada meu Deus Por esta areia escaldante ao meio dia Como se fosse cinza incandescente E tão doce Tão macia e suave À hora do Sol-pôr…
Deito-me toda aqui junto aos penedos E fico-me a pensar… O céu é sempre céu… A areia sempre areia… O mar é sempre mar… - Ai que vontade doida de cantar! É de risos a voz do mar gigante E se é de risos Porque me fico depois a meditar? Não sei porquê… Toda eu sou voltada para o mundo… Onde estão aqueles meus irmãos Que nunca têm férias? E são tantos, Meu Deus! Passam aos centos logo de manhã… O homem das cautelas… a velhinha da fruta… O pai… A mãe… E toda aquela gente lá do bairro Vergados e ligeiros Como formigas humanas passeirosas Trabalham sol a sol… E na torreira das tardes estivais As suas sombras são cruzes tombadas Nas estradas sem fim…
Meu Deus Quando eu sentir o sol queimar-me o rosto E estas ondas vestirem-se de espuma Fazei-me recordar O sentido grato dumas férias Que já foram negadas A outras como eu Possivelmente Muito mais merecedoras de repouso Mas a quem Os mestres e patrões Nunca deram um só dia de descanso…
Por elas Eu quero oferecer minhas férias O que for de mais sereno e doce Para que nas mãos todas gretadas Desses irmãos, operários de sempre A tesoura, o eixo o maçarico Se tornem muito leves E brinquem nas mãos deles Como as crianças brincam nos rochedos Indiferentes ao sol e à rotina… Dai-lhes Senhor a certeza profunda Da tua mão guiando as suas mãos Mesmo que o trabalho seja todo fogo As costas todas dor Os olhos todos mágoa E tenham de servir a vida toda Por algum oiro e nenhuma alegria… Em troca desse banho de pó Dá-lhes o teu Amor!
Por eles… Por esses outros que têm sempre férias E não sabem vivê-las cristãmente… Por eles Que na praia feita arsenal de luz Não sabem encontrar-vos No mar, no céu, na onda rendilhada Nos olhos doces dos meninos sãos Que brincam nos rochedos…
Obrigado meu Deus Por estas horas calmas e serenas Por esta solidão feita de sol Por este entardecer todo grandeza Em que meus olhos são meninos cegos A percorrer o mar A saltitar nas ondas Mais longe… mais longe… até tocar A linha azul do horizonte largo…
Agora Deixa-me Senhor falar convosco Nesta quietude feita de coisas belas E murmurar rezando
Dai-me Senhor Um coração grande como o mar Alegre como o Sol Puro como as estrelas…
Maria Helena Amaro Agosto de 1964 http://mariahelenaamaro.blogspot.pt/2014/05/oracao-de-ferias.html
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