
Quando destruíram a General Pedra
Data 13/05/2014 11:36:14 | Tópico: Poemas
| Quando destruíram a General Pedra Nunca mais pude comprar. Não havia mais secos e molhados.
De certo, virou pedra, cascalho Para algum aterro, Fez crescer ainda mais o nosso erro.
As águas rolavam límpidas, cristalinas Pelos canais do aqueduto. Hoje enegreceram Tornaram-se um rio escuro e difícil De pontes, estradas e viadutos.
Da Rua do Ouvidor ia-se ao Leblon Colher camélias no quilombo E na chácara do Seixas, Flores que enfeitavam O vestido das princesas E a lapela dos barões.
Havia Carlos Cachaça E sua menina O Observatório Nacional Da onde víamos A estrela vespertina E Einstein refletia Na astrofísica.
Havia a feira livre da Lapa, A praia de Benfica, E do Russell, A da piaçaba E da Maria Angu, O gol de Clavert No primeiro Fla Flu.
Ó Rio de Janeiro, És meu espanto e gozo! O desespero Dos que morreram de tifo No calabouço, Os mortos do Rebouças, O passeio, a viração e o riso No Palácio do príncipe mourisco, A fé nos sinos E na roleta dos cassinos.
Ó cidade totêmica, Cresces e te reproduzes Endêmica, Proscreves minhas prescritas memórias, Lanças-me Ao esquecimento e à glória. És muitas e sempre a mesma, Trama e sistema A engendrar a História E a erigir meu poema Como teu totem e apostema.
Ah, nada sobrou Das praias que desenhavam E te defendiam o litoral! Nada sobrou Do antigo Senado Federal! Nada da Casa Martinelli E do Mercado Municipal! Tudo abaixo pela febre Americana por carros!
Ah, mas dentre todas, És a mais bela, Sempre serás a capital federal!
Laura Alvim vestia-se Com o mais fino pano e cetim, Para ver o Zepelim, Deixava, no pátio de sua casa, Que os vendedores De pipoca e amendoim Guardassem as carrocinhas, Enquanto Santos Dumont Apitava partidas de tênis No Clube do Fluminense.
Íamos felizes Em dias solarengos Ao Cricket Club Torcer para o Flamengo.
Terra amistosa De sambistas e malandros, De pretos velhos e Normandos Sem esses vândalos Que hoje andam como loucos, Matando e roubando Aos bandos.
A Senhora Santos Lobo Tornou-se memória, parque, ruína De fotos, festas e flashes, De damas e valetes, De lobos e rapinas.
Tomava-se o expresso da Gávea Na esquina da Rua do Ouvidor Com a Gonçalves Dias Passava-se pela São Joaquim Até a Rua São Vicente E o Largo das Três Vendas. Ia-se do centro à Ponte Táboas Em apenas uma hora. Hoje engarrafo na Voluntários Num bonde repleto de mágoas.
Derrubaram a praça onze! Tinham razão Herivelto e Grande Otelo. Nem passeamos mais À sombra do Castelo. Empreiteiros e burocratas Puseram tudo abaixo Até a casa da Ciata.
Hoje são longas as horas Até o Largo da Memória E quando lá desço Sinto-me como o Chafariz de Montigny, Sem o Largo do Rocio, Estrangeiro, abissínio No frio tropical do seu desterro.
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