
REVELAÇÃO
Data 28/04/2014 01:54:23 | Tópico: Poemas
| REVELAÇÃO
Desci ao reino das palavras Em busca dos versos para fazer um poema. Surpreendentemente elas se esconderam E surgiram em seu lugar três carcereiros mascarados Eles me jogaram numa masmorra fria e escura. De nada adiantaram meus apelos, meus gritos, Tiraram a minha roupa e em minhas mãos Deixaram apenas meus sapatos velhos Como se com eles eu pudesse escrever. Depois eles se foram deixando somente o silêncio Aos poucos fui me dissolvendo na ausência da luz Em pouco tempo eu era apenas uma sombra. Colei-me na parede fria da masmorra E senti-a pulsar como um coração humano. De repente meus sapatos começaram a andar Mas apenas lhe ouvia as pisadas. Então no meio das trevas o poema explodiu:
Calcei teus sapatos porque este chão é sagrado, Tirei tuas roupas para que sejas livre, Dei-te as trevas para conheceres a verdade Pois o essencial é invisível aos olhos. Qual a finalidade da tua busca pelas palavras Se não és capaz de entender o silêncio? Ah! Pobre poeta, onde deixaste o cordão Que guiará os teus passos no caminho da volta?
Antecipaste a tua morte descendo neste reino Com a esperança de ressuscitar no terceiro dia E espalhar ao mundo as boas novas da poesia, Mas esqueceste de colocar as luvas de sonho Porque só assim se colhe as pérolas poéticas. Não ouses perturbar o sono das meninas Pois ainda não chegou a hora da colheita. Vem, senta ao meu lado e escuta:
Em primeiro lugar eu te escolhi entre os mortais Para tornar eterna a obra das tuas mãos Existem milhares de nós, já prontos e disponíveis, Basta possuir um harém no coração E a capacidade de derivar a equação do amor. E assim descobrireis a poesia escondida nos túmulos, Nos recantos dos embriagados, sob o manto da noite, Entre as prostitutas e os amantes proibidos.
Em segundo lugar Eu conheço cada parte do teu ser, Pois antes de nascer navegavas sobre meus ombros Fui menino contigo e te aninhei na solidão, Fui teu consolo quando uma mulher te abandonou Juntos deciframos enigmas e defloramos flores e mentes Arquitetamos armadilhas infalíveis E recolhemos o néctar invisível das mulheres ávidas.
Em terceiro lugar Não sabes que é privilégio da poesia penetrar No impenetrável e reconectar veredas Para que os sonhos nunca se apaguem?
Quando o céu escurece E os homens sem alma se erguem como zumbis A procura de carne, Quando explode nas ruas o homem bomba Se imolando pelos deuses inoperantes, Quando garras de aço estrangulam crianças, Quando as multidões jogam suas esperanças no homem de barro, Quando a mulher se espraia na alcova sequiosa e perfumada, Quando o marinheiro joga no mar as lágrimas de uma saudade Sabei então que é chegada nossa hora.
Nós violamos as regras e somos aplaudidos Porque viver é mais do que sentir, Chorar é mais do que sorrir Cantar é mais do que morrer. Não sabes que a noite é uma amante fiel? Sob seu manto se abriga a loucura lúcida Seus braços são longos para os abraços, Seus dedos são vagalumes a procura da chave Que abre a porta do imaginável.
Mas eu só queria um poema para minha amada, Consegui balbuciar no meio da escuridão Um rugido feroz ecoou por todo reino Não sei se saia de mim ou vinha do chão Ouvi as portas da masmorra se abrir, As trevas desapareceram e elas surgiram radiosas Uma a uma foram se apresentando, Lépidas, lânguidas, límpidas, lúcidas.
A uma só voz gritaram por todo reino: Salve! Salve! Ainda resta um poeta no mundo.
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