
e la nave se ne va
Data 08/03/2014 20:37:02 | Tópico: Poemas
| "...amua a lua que flutua sobre a grua, faz do cais uma grande feira livre ..." --------------------------------------------------
e la nave se ne va
I. À medida que nossa nave altaneira avança pelos atóis de corais desviando das crostas do gelo fino, o marujo da atalaia dispara foguetes criando no céu tantas estrelas, que começo a sonhar com arroubos como numa noite de verão, enquanto balas trançantes zuniam cruzando os céus da cidade, aproveita o céu e se cobre de gris anunciando uma feroz tempestade.
II. Dizem as estatísticas que os divórcios ultrapassaram os casamentos em números, que os atracadouros de barcaças são seguros, as ações das companhias de petróleo não vão parar de subir na bolsa. Posso ouvir o marulhar das águas claras num reino encantado encharcado e submerso; a marcha dos desesperados e excluídos ainda não ocorre durante os meses pares. Lado a lado, um pouco de lazer acima de tudo, enquanto lá fora uma escuridão perversa traz muito mais que calor de um verão: extrapola latitudes e altitudes, gerando atitudes nas longitudes.
III. Pessoas tentam fugir de cativeiros, balançantes cadeias nas pontas das prateleiras, ao ritmo marcante de fogo e balas, ao ritmo marchante de baionetas, esperando bandeiras desfraldadas. Bem que podíamos tentar voltar, vencer as ruas, íngremes subidas, ladeiras ao redor do pelourinho enfeitado por casarões de três andares, todos de cores vivas e berrantes contrastando com os barracos como fundo da cidade antiga, amua a lua que flutua sobre a grua, faz do cais uma grande feira livre trazendo nos mostruários dos feirantes amostras de bolas de bilhar e cestos de costura.
IV. E o mesmo tempo pendurado sobre a rua, sobre a cabeça, sobre o povo, sobre o lobo, emitindo lúgubre uivo e trovões com chuva a despencar pulverizando o primeiro andar. Alguns estranhavam, mas para mim era tudo familiar: os uivos lancinantes da matilha de cinzentos, os rugidos dos trovões, assobios dos obuses mensageiros da morte sobre os arcos de pedra despencados, mas nada obsta o navegar tranquilo singrando os sete mares, porquanto meio a tudo isso, la nave se ne va...
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