
Poemas de Silas Correa Leite
Data 28/02/2014 15:15:43 | Tópico: Poemas
| PA S S A P O R T E
“Perdi minha origem/E não posso encontrá-la/Eu me sinto em casa/Cada vez que o desconhecido me rodeia...” Bjork (Wanderlust)
Por muito tempo sobrevivi sem rumo Foi a época em que mais estive perto de mim Eu estava livre como um elo da natureza Dançava a chuva sem estar chovendo As pessoas riam muito das minhas estripulias Porque não sabiam da música Que eu ouvia e que lavava minha alma e elevava meu espírito.
Pedi a um músico sentado a beira da estrada de trigais amarelos Que me fizesse um blues sem mágoas Tomei banhos celestiais em fontes de águas límpidas Ouvi mantras e salmos feitos aos violinos dos ventos E cada parte de mim era uma bela asa sempre aberta Porque eu estava perdido Procurando me encontrar.
Então um dia uma dor terrível me resgatou E fui escrever livros para ter um passaporte muito além da angústia Estudei as tempestades para fugir da dura realidade cruel Até que deixei de ser criança e fui aprisionado no cinismo das vidas adultizadas Que finalmente acabei assim como sou agora Um pobre e simples e triste esquilo cego Procurando saída nas letras entre parafusos soltos E lágrimas secretas, como se fossem um fio-terra Porque agora já não posso nunca mais me mostrar nu. -0-
Fogão de Lenha
Para Minha Mãe Eugênia de Oliveira Correa Leite
O fogão de lenha de minha mãe De vermelhão Um bule verde com cabeça de galo feito de crochê no bico E a polenta amarela frigindo na chapa
Batatas; boi ralado (carne moída), milho verde Doce de pinhão E as lágrimas de sangue da mãe no guisado de saudades Tantos teares de ausências requentadas
As salamandras do fogo aceso Na solidão Bolinho de chuva, bolinho de arroz, bolinho de tristices E o enorme coração da mãe em chamas
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PEREGRINOS AFROBRASILIS (MAMA ÁFRICA-BRASILIS)
O trem já partiu faz séculos meu irmão Não há mais nada Nem trem nem conexão Nem noturno nem jornada Na estação abandonada... E uma multidão Espera um trem um navio um balão Para voltarem para a mama áfrica e raiz chão Não são filhos deste solo não São milhares, são milhões Nessa e em outras estações Primaveras invernos verões Em hangares, aeroportos, silos, moinhos, portos Subterrâneos, senzalas, cisternas, porões Eles esperam vivos ou mortos A volta ao lar que nunca mais verão Que nunca mais haverá Pois fincada o garrão da dor matrix está Em terra em que se plantando tudo dá (Até escravidão) Onde canta a sabiá E a sutra do garrote e o ferrão E a áfrica peregrina ficou assim Parada no ar em você, em nosotros e em mim No sangue, na alma, no espírito, no DNA Semeada no Brasil afrodescendente Essa humanagente Fundada em saudade e dor A fruta parda a fruta mameluca a fruta mulata a fruta-cor Essa africabrasilis em que todos Em várzeas cortiços palafitas guetos becos e lodos A história remorso calarão Mas banzos e mantras e lundus e blues em tristices cantarão E para sempre esperarão, esperarão O trem o barco a nave a morte o balão Cada um em seu mais interior Humanagente Afroperegrinos descendentes das mãos do invasor Colonizador Predador Em nome da cruz de sangue e de nosso senhor Em que fundaram esse Brasil de capitania hereditária Gigante de esplendor Sem indenização aos escravos Sem reforma agrária Com sangue desse tanto horror Ergueram nessa terra seus negros bravos Um Brasil afro com descendência e construidor Pelo sangue, pela lágrima, pelo amor Um áfrica-filha; eis o Brasil vencedor E sofredor Em cantagonias de um país de escravo e feitor Levando a alma áfrica-mãe por onde for África peregrina no historial condutor... -0- Cyber Poeta Silas Correa Leite – Santa Itararé das Artes, das Letras, das Lágrimas, São Paulo, Brasil Descendente de negro (de Angola) e índio (guarani) por parte de mãe E de judeu-português (cristão novo) holandês por parte de pai E-mail: poesilas@terra.com.br www.portas-lapsos.zip.net Autor de Porta-Lapsos, Poemas, Campo de Trigo Com Corvos, Contos, O Homem Que Virou Cerveja, Crônicas, etc. Prêmios: Ligia Fagundes Telles Para Professor Escritor, Poema Paulo Leminski de Contos Ignácio Loyola Brandão de Contos Prêmio Mário de Andrade, Poesia Sobre São Paulo Prêmio Instituto Piaget, Portugal, etc.
Silas Correa Leite
Silas Correa Leite
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