
"The Art Of Poetry", de Kenneth Koch (tradução minha)
Data 06/02/2014 09:09:31 | Tópico: Poemas
| Camaradas, Segue uma tentativa de tradução do poema "The Art O Poetry", de Kenneth Koch, um poema sobre a escrita de poesia que recomendo vivamente. Aceitam-se naturalmente sugestões para aprimorar esta versão. O original pode ser lido em: http://www.jstor.org/discover/10.2307 ... uid=60&sid=21103465904573 Um abraço Xavier Zarco
A ARTE DA POESIA (Kenneth Koch)
Para escrever um poema, a condição física perfeita É desejável mas não necessária. Keats escreveu Pouco saudável, tal como D. H. Lawrence. A combinação De doença e velhice é um impedimento para escrever, mas Nenhuma é, sozinha, a não ser que haja arterosclerose – isto é, Endurecimento das artérias – mas isso vamos contar como uma doença Acompanhando a velhice e por consequência uma condição negativa. Saúde mental é certamente não uma necessidade para a Criação de beleza poética, mas um grau desta Parece ser, excepto em casos raros. A poesia esquizofrénica Tende a ser solta, desconjuntada, acrítica dela mesma, de certa forma Como o que é melhor na nossa prática moderna da arte poética Mas não em outras, na sua falta de respeito Pela intensidade e nuance. Alguns grandes poemas De poetas supostamente tidos como “loucos” são claro conhecidos por todos nós, Tal como os do Christopher Smart, mas não sei o quão loucos estes eram, Estes poetas que escreveram tais engenhocas de exigência em arte? Sobre se Blake era “louco”, tal parece-me bastante improvável.
Mas e Wordsworth? Não é louco, digo eu, mas e o seu último trabalho, que aborrecimento Até à inanidade, quase, e as destrutivas “correcções” que fez Ao seu Prelude, enquanto farejava através dos baixios da arte? Ele era realmente terrível após escrever a Ode: Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood, na maior parte, Ou parece-me. As “correcções” de Walt Withman também, do Leaves of Grass, E especialmente Song of Myself, são quase sempre terríveis.
Existe algum caminho a seguir para a velhice e para a fama e aceitação E orgulho em nós e da nossa aprovação pela sociedade sapiente Sem ficarmos torpes e torpes e exauridos de talento? Sim, Yeats mostrou-nos que pode ser. E Sófocles escreveu poesia até aos cento e um, Ou cem, seja como for, e bebia vinho e dançava toda a noite, Mas ele era um Grego Antigo e assim talvez não nos ajude aqui. Ou Pensando melhor, talvez. Existe, parece a sensação Em que cada um deve crescer e desenvolver-se, e no entanto ficar jovem – Não oxigenado, não estúpido, não com cabelo transplantado para parecer vigoroso Mas jovem no seu coração. E para isso é boa ideia ter alguns Amigos que escrevam tão bem como tu, que saibam o que estão a produzir, E saibam quando estás a fazer algo de errado. Eles devem ter qualidades que tu nunca terás, Para que continues a escalar um impossível monte. Estes amigos devem dar-te tal competição que te fará sentir, por vezes, bastante desconfortável, E deves também cuidar do teu corpo físico Como do teu coração poético, após horas consecutivas de avançada concentração Será preciosa para a tua escrita e talvez não seja possível Se estiveres exausto e doente. Por vezes um estado anormal de saúde Será inspirador, e até poderemos aceitar uma certa quantidade, Mas não deve ser tida como regra. Beber álcool é correcto Se não for em excesso, e duvido se tal seria benéfico Durante a própria escrita. Quanto à marijuana, há aqueles que Dizer ser capazes de escrever bem sob a sua influência Mas eu ainda tenho de ver a primeira evidência de tais afirmações. Drogas duras são jocosamente inapropriadas, dado que destroem o senso E o gosto, e fazem-nos quer gostar ou não gostar de tudo o que fazemos, Ou então tornam a vida num sonho. Ninguém escreve bem durante o próprio sono.
Quanto a seguir os movimentos literários da moda, É quase irresístível, e por uns tempos não vejo mal nisso, Mas quão mais depressa descobrires o teu estilo melhor ficarás. Então todos os “movimentos” se ajustam. Tu tens a tua própria “bicicleta de ginástica”. Experimentando todos os tipos de estilos e imitando poetas de que gostas E incorporar algo de valioso que aí encontrares, Isso são processos sólidos, e de facto eu penso que são essenciais Para a perfeição de um estilo original que é só teu. Um estilo original pode não durar mais de quatro anos, Ou até três ou dois, às vezes em raras ocasiões um, E então terás de procurar outro. É concebível até que o estilo Para um poeta muito exigente seja só para um único trabalho, Depois do qual ficará exausto, coxo, incapaz de sustentar qualquer mal ou bem. Por “exigente” quero dizer extremamente cauteloso, querendo que cada poema seja a conclusão De tudo o que capta, sente, e conhece. O poeta exigente tem as suas satisfações, que são relativamente especiais, Mas este não é o único tipo de poeta que podes ser. Há prazer em ser Vénus, E enviar amor a todos, em ser Zeus, E enviar trovões a todos, em ser Apolo E todos os dias enviar luz. É um prazer escrever continuadamente E bem, e isso é um sonho poético especial Que podes ter ou não. Nem todos os escritores o têm. Browning uma vez escreveu um poema todos os dias durante um ano E descobriu que “não resultou bem”. Mas quem sabe? Ele fê-lo durante um ano – algo deverá ter corrido bem. E por que só um poema por dia? Por que não vários? Por que não um por hora em oito ou dez horas por dia? Parece não haver razão para não se tentar se para isso estiveres inclinado.
Alguns poetas gostam “de se guardar” para poemas, outros gostam de gastar incessantemente o que possuem. Gastando, claro, terás mais, existe um “bolso sem fundo” Como diz o princípio, desde que os teus sentimentos mudem a cada instante E a linguagem tem milhões de palavras, e o número de combinações é infinito. É verdade, devemos sentir, talvez Puritanamente, que Uma pessoa só tem limite no que tem a dizer, e, para além disso, dez mil poemas por ano Por pessoa inundariam a terra e talvez eventualmente o universo, E ninguém quereria tantos poemas – existe então um “sistema de quotas” Secretamente, ou nem tanto, a trabalhar. “Se consigo escrever um bom poema por ano, Estou grato”, diz o notável Poeta, ou “seis” ou “três”. Bem, talvez para este Poeta, Mas para ti, camarada remador, e para mim, talvez não. Para além disso, eu penso que os poemas São estetecologicamente inofensivos e psicodegradáveis E que nunca chocarão os espíritos do mundo. Que um poema só nos afecta E “existe”, realmente, se for válido, e não podem haver muitos desses. Escrever constantemente, em qualquer caso, é um sonho poético Diametralmente oposto à “destilação última” Do sonho, que é do exigente poeta. Até que ponto um poema deve ser bom Antes de o apresentarmos, quer seja na nossa própria obra ou ao olhar dos outros, Talvez seja decidido aplicando as seguintes regras: pergunta 1) É surpreendente? Estou agradado sempre que o leio? Diz algo que eu desconhecia Antes de me sentar para o escrever? e 2) Ergo-me perante este como um homem melhor Ou como um sábio, ou como ambos? ou não podem os dois ser separados? 3) É realmente meu Ou roubei-o em outro lugar? (Isto às vezes acontece, Apesar de ser comparavelmente raro) 4) Revela algo sobre mim Que eu desejo que ninguém saiba? 5) É suficientemente “moderno”? (Mais sobre isto um pouco mais tarde) 6) Está na nossa própria “voz”? Junto, claro, as mais obvias questões, tais como 7) Haverá alguma inesejável inépcia, efeitos baratos, pedindo ilegitimamente a atenção, Exibições, belezas, pseudo-profundidade, velhos talhões de chapeleiro Fragmentos não assimilados de sonhos, ou outros lixos “literários”, “beija-me-que-eu-sou-poético”? Está o meu poema livre disso? 8) Ele move-se suave e agilmente Da excitação ao sonho e depois se torna razão fluente Com pureza e alegria? 9) É este o tipo de poema Que invejaria se outro o pudesse escrever? 10) Ficaria feliz em ir para o Céu com isto incrustado no meu Casaco angelical como visto de entrada? Oh, quereria eu? E se pudesse responder a todas Sim Excepto à 4.ª, para a qual a resposta deveria ser Não Então tu podes apresentá-lo, pelo menos por agora. Eu olharia para ele outra vez, não obstante, talvez daqui a duas horas, depois passadas uma ou duas semanas, E depois um mês, passado esse tempo tu estarás provavelmente seguro.
Olhar para um poema outra vez claro que causa ansiedade Em muitos casos, mas essa dor um escritor deve aprender a suportar, Porque sem ela ele será como uma galinha que nunca sabe o que está a fazer E andará a perder penas e bater asas pela vida fora. Quando descobrimos o poema Inadequado, devemos revê-lo, e tal pode ser árduo de fazer Sem dúvida. Porque a “inspiração” original já não está lá. Alguns poetas nunca dominam a Arte de o fazer, e permanecem “menores” ou quase nada. Tal tem a minha simpatia mas não o meu elogio. A minha simpatia porque Tal trabalho é difícil, e muitas pessoas nada conseguem de outra maneira No decurso das suas vidas; pelo menos estes poetas estão a escrever “Primeiras versões”, mas nunca obterão o elogio De um leitor discernido até que levem a impiedosa Revisão para a cama E curvá-la à sua vontade e criando através dela poemas “em segunda mão” Ou até alguns em “terceira mão”. Há várias formas para ganhar Os favores desta dama. Uma é o trabalho generoso, mas tem cuidado Que não queres estragar o que já lá está com uma escrita insensível Que o torna mais “lógico” mas corta o coração. Ao contrário da Doce, loura, de belos seios, Inspiração, a Revisão é difícil De agradar, morena misteriosa que é conquistada de formas estranhas. Por vezes negligenciar um poema por várias semanas é melhor, Como se te tivesses esquecido de o escrever, e mudá-lo então O mais rápido que puderes – dessa maneira, evitarás no mínimo “retoques” a seco Que é fatal é qualquer arte. Às vezes a confiança que tens num poema bem conseguido Pode-te ajudar a encontrar para um outro as alterações que desejas. Em verdade, uma noite bem dormida e um novo dia repleto de confiança são bem desejáveis, E, mal estejas habituado às normais dores que surgem com a revisão, Podes vir a gostar muito delas. Dão-nos a estranha sensação De que estamos a “trabalhar sobre” algo, como um engenheiro faz, ou um piloto Quando algo corre mal com o avião; visto que a primeira versão inspirada do poema É simplesmente mais como um relâmpago para o coração. Rever dá-nos a sensação de sermos um construtor. E se nos traz dor? Bem, Às vezes sim, e a mulher tem dor no parto E amiúde deseja fazê-lo outra vez, e talvez o urso pardo tenha dor Quando desce à toca sob a terra para dormir todo o inverno. Na escrita A dor é relativamente menor. Nós não precisamos de falar dela outra vez Excepto no caso do medo que temos como “perder o nosso talento”, Para o qual vou imediatamente. Este medo É um medo perfeitamente lógico para os poetas terem, E todos eles, de tempos a tempos, têm-no. É muito raro Para aquilo que fazemos de melhor e do qual depende a nossa felicidade Em grande medida, ser dependente de factores Que parecem para além do nosso controle. Porque de onde surge a Inspiração? Ficará ela na sua Quinta de Felicidade ou virá ter comigo esta noite? Terei ficado tão velho para os seus beijos? Gostará ela mais daquele jovem do que de mim? Serei eu um velho porco sujo? É isto então o fim? Não terei Perdido essa doce e fácil destreza que tinha na semana passada, No mês passado, no ano passado, na década passada, que agradava a todos E especialmente me agradava? Já não consigo sentir o seu calor – Oh, sem dúvida que o perdi! Etcetera. E quando escreves um novo poema Tu gostas, esqueces essa angústia, e assim até à tua morte, Para além da qual serás lembrado, não por “manteres o teu talento”, Mas por aquilo que escreveste, apesar dos teus receios e medos.
A verdade é, penso eu, que nunca perdemos o nosso talento, Embora possamos aplicá-lo mal – em tentativas para permanecer no passado, Em riscos sem proveito algum com a intenção de agradar àqueles que Podíamos ver claramente que não quereríamos agradar, Em libretos de ópera, ou até na nossa própria vida Em qualquer lado. Mas tu consegues quase sempre encontrá-lo, talvez ao tentar novas formas Ou não na forma de todo mas em a (parecendo) falta desta – Escreve “corrente de consciência”. Ou, diferentemente outra vez, faz algumas traduções. Renuncia repetidamente aos sucessos dos anos anteriores. Procura Um sucesso do tipo inimaginável. Escreve um manual poético de pesca. Tenta uma Arte do Amor. Tanto faz, está atento por aquilo que temes ter perdido, O talento que aplicaste mal. Os únicos caminhos reais para o perder São um sério dano no cérebro ou estar tão atraído Por outra coisa qualquer (tal como dinheiro, sexo, reparação de motores caros) Que tenhas esquecido por completo. Nesse caso, o que interessa o que perdeste? Apesar da verdade disto tudo, apesar de tudo, eu estou consciente Que o medo do talento perdido é uma parte natural à existência do poeta. Então está preparado para isso, e não deixes que tal te derrube. Quanta experiência deve um poeta ter Para ter a certeza que tem a suficiente para ter a certeza de ser um adequado conhecedor E sentir e pensar sobre a experiência tal como esta existe no nosso tempo É algo duro de responder, e a única regra segura em que posso pensar É experimentares o máximo que puderes e escrever o máximo que puderes. Estas duas podem ser contraditórias. Uma boa parte das experiências são inúteis Pelo menos no que diz respeito à poesia. Enquanto a menos prometedora, Aparentemente, atirar-nos-ão uma épica integral ao nosso colo. Todavia, isso é Sarajevo E não causa. Provavelmente. Eu não sei o que te dizer Que se possa aplicar a todos os casos. Sugeriria uma viagem E aprender pelo menos uma outra língua (cinco ou seis Pode ser uma distracção). Quanto à sexualidade e outros Prazeres sensuais, deves descobri-los por ti mesmo. Tu deverás conhecer o mundo, homens, mulheres, espaço, vento, ilhas, governos, A história da arte, notícias de continentes perdidos, plantas, noites, Manhãs, dias. Mas deves ter tempo também para escrever. Precisas de ambientes para os teus poemas e também de pessoas, Mas também precisas de vida, precisas de cuidar destas coisas E destas pessoas, e esta é a dificuldade, que Aquilo que encontrarás de melhor para escrever não pode ser experienciado Meramente como “material”. Há algumas artes que escolhemos Das “faixas laterais da vida”, e das futuras e passadas ao mesmo tempo, Mas estas amiúde não funcionam – ou sim, para nossa desvantagem: Tu sentes, “Eu não experimentei isto. Aquela vaca fez Mais do que eu. Ou aquele “Tuaregue” sem um pensamento no mundo Para além de existir. Ele é o único que realmente existe. Isso é verdadeira poesia. Eu sou nada”. Sugiro esperar umas horas Antes de chegar a tal decisão brusca e sair Tu mesmo cavalgando num camelo. Porque não podes escapar à tua mente E ao teu estranho interesse em escrever poesia, que te fará, Necessariamente, um experimentado e não-experimentado Da vida, ao mesmo tempo, mas deves tomar consciência de que aquilo que fazes É imensamente valioso, e difícil, também, em certa maneira cavalgar um camelo não é, Apesar de ser valioso também – vocês os dois irão espantar-se um ao outro, O Tuaregue e tu, e isto é também parte da vida Que deves captar no teu poema. Sobre o quanto a nossa poesia Deverá “reflectir a nossa experiência”, julgo que não se pode evitar Fazer isso. A versão ingénua de tal conceito É claro, é estúpida, mas se sentires a necessidade do “confronto” Às vezes, tenta, e vê como ocorre. Para “realmente descobrir as tuas emoções”, Escreve, e continua a trabalhar nisso. O sucesso no mundo literário É quase sempre irrelevante mas talvez te agrade. É bom ter um amigo Para te ajudar a passar os monstros pelo caminho. Tornares-te famoso não te irá magoar A não ser que estejas tolamente hiperfascinado e esqueceres Que também isto é meramente uma parte da tua “experiência”. Para aqueles que fazem os poetas famosos Em geral nada sabem sobre poesia. Lembra-te que a tua obrigação é escrever, E, em escrevendo, para ser sério sem ser solene, fresco sem ser gelado, Ser inclusivo sem ser asinino, particular Sem ser picuinhas, feminino sem ser enfeminado, Masculino sem ser bruto, humano enquanto se mantém todas as graças animais Que tiveste dentro do ventre, e animalesco sem ser desumano. Deixa a tua linguagem ser sempre descartável, e fresca e verdadeira. Não sejas presunçoso. Deixa a tua compaixão guiar-te E o teu entusiasmo. E leva sempre os teus empreendimentos até ao fim.
Uma coisa que o poema precisa é estar completo Em si mesmo e não precisar de outros para o complementar. Assim este poema sobre escrita deveria estar completo Com informação acerca de tudo o que concerne ao acto De criar um poema. Um trabalho também não deveria demasiado longo. Cada linha deveria dar uma nova sensação de conclusão De “Oh, agora sei isso, e quero continuar!” “Medida”, que decide o quão longo o poema deve ser É difícil, porque a elaboração possível é infinda, Tão infinda como o desejo de escrever, então a decisão de acabar Um poema é geralmente arbitrária mas necessária Excepto nos seguintes dois casos: quando embarcamos num épico Confiantes de que irá durar toda a nossa vida, Ou quando deliberadamente o continuamos para lá da esperança de o concluir – Edmund Spenser e Ezra Pound parecem exemplos De um destes casos ou do outro. E ninguém sabe como O Faerie Queen continuou (se continuou, como um escritor disse, As últimas partes foram destruídas num saque à casa de Spenser Pelo louco mas justificado Irlandês, ou terá sido pelos seus criados?). É possível que Spenser nunca tenha ido além do Book Six De uma maneira séria, porque a ideia da conclusão era desagradável, No entanto o seu plano para o livro, se ele o escreveu, o obrigaria a acabá-lo. Ao contrário de Pound Que não tinha estipulado um determinado local para cessar. Chegar a um ponto final E conferir uma determinada forma é bem mais fácil no drama, Pode ser, ou nas canções curtas, como We’ll Go No More a’Roving, um dos mais Tocantes poemas de Byron, um sucesso absoluto, o melhor Curto, acredito, que Byron escreveu. Em todos estes Casos, então, excepto para poemas que “duram a vida” há um ponto a que chegamos Quando sabemos que temos de por um ponto final, E este é o ponto que deve ser alcançado. Para o alcançar, todavia, Talvez tenhamos de cortar muito do que escrevemos ao longo do caminho, Porque o fim não vem necessariamente de si mesmo Mas deve ser retirado do material, como uma flor.
Qualquer um que queira escrever um poema épico Deve desejar ter uma trama na mente, ou no mínimo um estado de espírito – o Requisito mínimo é uma forma. Por vezes a estrofe, Como na ottava rima de Spencer, ou de Ariosto, fará o poema fluir Monte abaixo e monte acima e à volta da experiência E do mundo na maneira mais louca imaginável. O suficiente, Neste caso, para começar, e para nos deixarmos ser levados Pelo vento do oito (ou, no caso de Spencer, nove) estrondosas rimas. Por vezes versos brancos tentarão o amador Da escrita infinda; por vezes um dístico; por vezes um “verso livre”. Os “skeltónicos” são difíceis de manter por um período longo Como são, na Inglaterra, e no Grego daquilo que conheço, os “Sáficos”. O épico tem uma clara vantagem sobre qualquer tipo de poema Lírico em estar lá quando se regressa a ele para o continuar. O Lírico está fugindo, usualmente agarrado a um Fôlego ou a nada (assim vê o que foi dito antes Sobre revisão – pode ser feito). O épico é escrever, todavia, Como um grande cão pastor está sempre lá Acenando e esperando para nos atrair para um canto Para ser mimado e ser mandado ir buscar o osso narrativo. Oh escrever um épico! que prazer E que agonia! Mas o prazer é maior do que a agonia, E consegui-lo é o mais doce de todas as coisas. Os homens levantam o problema, “Como pode alguém escrever um épico no mundo moderno?” Podemos responder, “Olha à tua volta – diz como não o fazer!” O que é mais ou menos o que Juvenal disse sobre Sartire, mas o épico é uma forma Por que o nosso plano de tempo-espaço internacional chora – ou assim parece Para quem observa. O lírico é também uma necessidade, E esses podes escrever quer sozinho Ou nos interstícios do teu poema épico, como flores Nas fendas da Grande Muralha da China enquanto vasculha através da terra. Escrever somente lírica é estar triste, talvez, Inquietado, ou sobreexcitado, demasiado dependente da circunstância – Mas há uma saída daí. O lirismo deve ser moldado A uma forma mais operativa, para que Os fragmentos do ser reflictam absoluto (vê por exemplo o verso de William Carlos Williams ou Frank O’Hara), e podes continuar Sem estares a salvar tudo a todo o tempo. Se conseguires dominar a destreza deles, És um poeta afortunado, e habilidoso. Deves ler Bastante, e pensar sobre a escrita de poesia a todo o instante. Total absorção em poesia é uma das melhores coisas na existência – Dever-te-ia não te sentir culpado. Todos estão absorvidos por algo. O marinheiro está absorvido pelo mar. Poesia é a mediação da vida
O épico é particularmente apropriado ao nosso mundo contemporâneo Porque nós estamos tão incertos de tudo e também sabemos de mais, Uma curiosa e aparente contraditória condição, que o épico salva Ao ofertar-nos o nosso conhecimento e o nosso entendimento, com todo a nossa falta de controle também. O lirismo ajusta-se a nós como uma borboleta, então epicamente ilude o nosso entendimento. O drama poético no nosso tempo parece impossível mas de facto existe como Uma fabulosa possibilidade bem ao nosso alcance. Para escrever drama Devemos conceber alguém que responda àquilo que dizemos, tal como agora estou a conceber de ti.
Quanto a se ou não usas rima e quão “moderno” tu és É algo que o teu génio pode decidir a cada manhã Quando sais da cama. Que dia limpo! Boa sorte nisso! Apesar da métrica estar provavelmente, e a rima também, provavelmente, morta Por um instante, excepto em estrofes narrativas. Experimenta. O prazer da fácil inflexão entre métrica e estas fáceis linhas de vocábulos É um prazer, se fores capaz de o sentir, é improvável que o renuncies. Quanto aos métodos e técnicas “surrealistas”, estes transformaram-se numa Parte natural da escrita. A tua poesia, se possível, deve estender-se Algo além da tua experiência, enquanto se mantiver fiel; Material inconsciente deve representar um papel agradável No que estás a escrever, porque sem a parte inconsciente Sabes muito pouco; e as declarações mais simples deverão ser Ainda melhor do que simples. Um leitor deve pousar o teu trabalho intrigado, Perturbado, e iluminado, pronto para acreditar Que é curioso estar vivo. Quanto ao saberes o bem Que fazes ao escrever, comparado no que os bons estadistas, médicos, Vendedores de flores, e missionários fazem, talvez faças menos E talvez mais. Se quiseres experimentar uma destas Outras ocupações por uns tempos, experimenta. Imagino que irás descobrir Que a poesia faz qualquer coisa que eles não fazem, quer seja Mais importante ou não, e se gostas da poesia, tu vais gostar de ser tu a fazê-la.
A poesia não precisa de ser uma ocupação exclusiva. Alguns pensam que sim, outros que não. Mas deves Ter anos para a poesia, ou pelo menos se não anos meses Em certos pontos da tua vida. Semanas, dias, e horas podem não ser bastantes. Quase qualquer pedaço de tempo bastará para ser um “poeta menor” Assim que tenhas dominado uma certa quantidade de arte Para a escrita de um poema, mas eu não vejo o bom da poesia menor, Como se fosses ao Tour d’Argent buscar o jantar para o teu cão, Ou “quase” ser amigo de alguém, ou estar lá mas não ir às aulas, Ou ser uma auxiliar de enfermagem para o resto da tua vida depois de te licenciares em medicina, O que vale isso? E alguns podem desejar escrever canções E usar o seu talento nisso. Outros talvez até acabem a escrever anúncios. Para todos os que ficaram de fora, quando estes partirem, E são um grupo estranho, eu só vos escrevo estas palavras.
É verdade que boa poesia é difícil de escrever. Poesia é um escape da ansiedade e a fonte desta também. No fundo, parece-me que vale a pena. No final de um poema Podemos ser tentados a ficar muito universais, filosóficos, e vagos Ou a trazer a História, ou o Mar, mas não devemos fazê-lo Se nos fosse possível evitá-lo, visto que faz Com que tudo o que escrevamos pareça como outra coisa qualquer, E a poesia e a vida não são assim. Agora disse o suficiente.
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