
Para fazer um talismã [poetas argentinos] Olga Orozco
Data 18/01/2014 12:54:10 | Tópico: Poemas -> Introspecção
|  Basta o teu coração feito à viva imagem de teu demônio ou de teu deus. Um coração apenas, como um crisol com brasas para a idolatria.
Nada mais do que um indefeso coração enamorado. Deixe-o na intempérie, onde a erva entoa suas endechas de ama louca e não possa dormir, onde o vento e a chuva deixem cair seu látego em um golpe de azul calafrio sem convertê-lo em mármore e sem parti-lo em dois, onde a escuridão abra suas tocas a todas as matilhas e não consiga esquecer.
Jogue-o depois do alto de seu amor ao fervedouro da bruma. Ponha-o logo a secar no surdo regaço da pedra, e escave, escave-o com uma agulha fria até arrancar o último grão de esperança.
Deixe que o sufoquem as febres e a urtiga, que o sacuda o trote ritual da alimária, que o envolva a injúria feita com os retalhos de suas antigas glórias.
Ou quando um dia um ano o aprisione com as garras de um século, antes que seja tarde, antes que se converta em múmia deslumbrante, abra de par em par e uma por todas as suas feridas:
que as exiba ao sol da piedade, tal qual o mendigo, que expõe seu delírio no deserto, até que somente o eco de um nome cresça nele com a fúria da fome: uma incessante colherada contra o prato vazio.
Se sobrevive ainda, se chegou até aqui feito à viva imagem de teu demônio ou de teu deus; eis aí um talismã mais inflexível que a lei, mais forte que as armas e o mar do inimigo.
Guarde-o na vigília do teu peito como um sentinela. Mas vele-o. Pode crescer em ti como a mordedura da lepra; pode ser teu verdugo. O monstro inocente, o insaciável comensal da tua morte. Olga Orozco (1920/1999) nasceu em Toay na região de La Pampa, Argentina. Passou a infância e adolescência em Bahia Blanca e aos 16 anos, mudou-se para Buenos Aires onde começou a escrever. Trabalhou como jornalista e dirigiu diversas publicações literárias. Amiga e confidente da escritora Alejandra Pizarnik. Fez parte da geração Tercera Vanguardia de tendência surrealista. Sua obra foi traduzida para muitos idiomas e recebeu vários prêmios, entre eles o Prêmio Gabriela Mistral, outorgado pela OEA, e o Prêmio de Literatura Latino-Americana Juan Rulfo, em 1998. A autora faleceu em 1999, em Buenos Aires.
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