
Uso a palavra para compor meus silêncios (Manoel de Barros)
Data 19/12/2013 16:02:27 | Tópico: Poemas -> Reflexão
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Não uso das palavras Fatigadas de informar. Dou mais respeito Às que vivem de barriga no chão Tipo água pedra sapo. Entendo bem o sotaque das águas. Dou importância às coisas desimportantes E aos seres desimportantes Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais do que as dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios Amo os restos Como boas moscas. Queria que minha voz tivesse formato de canto Porque não sou da informática Eu sou da invencionática. Só uso minhas palavras para compor meus silêncios.
Manoel de Barros, poeta, In: "Memórias inventadas – As Infâncias", São Paulo: Planeta do Brasil, 2010. p. 47.
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