
O cerne do amor
Data 19/11/2013 09:37:23 | Tópico: Textos
| Nem os seus noventa e dois anos de vida nem a sua bengala na mão direita, o impedem de se vestir como um cavalheiro com o seu fato cinza e o seu cachecol de xadrez a agasalhar o pescoço e fazer o trajecto diário de camoineta até ao pé da sua companheira de uma vida inteira, internada na ortopedia do hospital da Amadora. Ainda está para chegar o dia em que serei eu a primeira a chegar... Assim que começa a visita, lá pela hora do meio dia e até ao final da mesma por volta das sete da tarde, ali ficam os dois a conversar e a desfiar memórias como se estivessem sentados na sua própria cozinha ou sala de estar. Conforme a hora, se for do almoço ou pela tarde fora. A empregada chega com o tabuleiro da dieta dela ao qual ele prontamente ajuda por causa do braço partido que a impede de cortar a carne ou de pegar na tigela da sopa. Depois, é a vez dele tirar do interior de um saco de plástico o seu tachinho do guisado que fez antes de vir. Ainda lhe pergunta se é servida, mas os diabetes dela não a deixam aceitar a oferta e sorriem os dois num conformismo complacente. E assim passam os dias, juntinhos, como o seria por certo noutro lado qualquer.
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