
Memória
Data 02/11/2013 11:19:27 | Tópico: Poemas
| Memória (a uma amiga)
Grávida de muitos meses sentia a barriga enorme a roçar o fogão... Cansada da viagem, carregando na alma, o amargor de dúvida e o sentido da vida sem razão ficou parada, olhos, húmidos de dor a percorrer o chão... Então o marido entrou e numa voz pausada disse com firmeza e lentidão: Não quero que lhe falte nada! Estremeceu. A face retesada - face de virgem que nem era feia- e começou a preparar a ceia. O marido não queria que lhe faltasse nada! A ela de barriga à boca prestes a rebentar tinha esquecido... Mas à amante que de viagem chegara enjoada olhar fingido de raposa matreira à procura de caça (a caça era o marido...) Não queria que faltasse nada!
Pousou as mãos silenciosamente sobre a barriga... Duas lágrimas rolaram e foram saltitar em riscos sobre a mesa...
O marido saiu. E ela ficou suspensa entre o céu e a terra... Teria que escolher. O filho ia nascer... Nascer sem ter o pai? O problema eterno! E ela ao escolher para que o filho ao nascer tivesse uma família escolheu o inferno!
Maria Helena Amaro setembro,1988 (Premiado no Concurso Novos Poetas)
http://mariahelenaamaro.blogspot.pt/2013/11/memoria-uma-amiga.html
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