
A minhas solidões vou (Lope de Vega)
Data 12/10/2013 11:05:36 | Tópico: Poemas -> Intervenção
|  A minhas solidões vou, de minhas solidões venho, porque para andar comigo me bastam meus pensamentos. Não sei o que tem a aldeia onde vivo e onde pereço, que não posso vir mais longe porque venho de mim mesmo! Nem bem nem mal vou comigo; mas diz meu entendimento que um homem que é todo ele alma no próprio corpo está preso. Entendo quanto me basta, e somente não entendo como se sofre a si mesmo um ignorante soberbo. De quantas coisas me cansam, facilmente me defendo; porém não posso guardar-me desses perigos de um néscio. Ele dirá que eu o sou, porém com falso argumento; que humildade e necedade não cabem num só sujeito. A diferença conheço, porque nele e em mim contemplo a loucura da arrogância, a humildade em seu desprezo. Ou sabe hoje a natureza mais que soube em outro tempo, ou tantos que nascem sábios é por força de dizê-lo. Eu só sei que não sei nada, disse um filósofo, sendo sua conta a humildade, onde o que é mais é o menos. Não me gabo de entendido, por desditado me tenho; pois os que não são ditosos, como podem ser discretos? Não pode durar o mundo, pois dizem, e assim o creio, que soa a vidro quebrado e que se quebrará presto. São os sinais do juízo ver que todos o perdemos, alguns por carta de mais, outros por carta de menos. Disseram que antigamente a verdade foi-se ao céu: tal a puseram os homens que não se lhe viu regresso. Em dupla idade vivemos nós próprios e os estrangeiros: a de prata é a dos estranhos, a de cobre o nosso meio. A quem não dará cuidado, se é espanhol verdadeiro, ver o homem à moda antiga e nosso valor moderno? Deus disse que comeria seu pão o homem primeiro suando o suor da carta, por quebrar seu mandamento; e alguns desobedientes a qualquer vergonha e medo, com as prendas de sua honra hão trocado seus efeitos. Virtude e filosofia peregrinam como cegos. Cada qual carrega ao outro, pedindo vão e gemendo. Dois pólos tem nossa terra, universal movimento: a melhor vida o favor, o melhor sangue o dinheiro. Escuto planger os sinos, não me espanto, só me pesa que em lugar de tantas cruzes tantos homens mortos veja. Olhando estou os sepulcros e seus mármores eternos; que não o foram seus donos estão sem língua dizendo. Oh! bem haja quem os fez, porque tão-somente dentro deles, dos mui poderosos podem vingar-se os pequenos! Sei que pintam feia a inveja; eu, porém, tê-la confesso de alguns homens que não sabem nem dos que lhes vivem perto. Sem tratos, contas nem contos, sem livros e sem cadernos, quando querem escrever pedem a alguém o tinteiro. Sem serem pobres nem ricos, têm chaminés e canteiros. Não os despertam cuidados, não têm pretensões nem pleitos. Não murmuraram do grande, nem zombaram do pequeno; nunca, como eu, páscoas deram nem firmaram cumprimentos. Com esta inveja que digo e com o que passo em silêncio, a minhas solidões vou, de minhas solidões venho. Lope de Vera (1562-1635), poeta e novelista espanhol (Tradução de Fernando Mendes Vianna).
Extraído de POETAS DO SÉCULO DE OURO ESPANHOL: POETAS DEL SIGLO DE ORO ESPAÑOL / Seleção e tradução de Anderson Braga Horta; Fernando Mendes Vianna e José Jeronymo Rivera; estudo introdutório de Manuel Morillo Caballero. Brasília: Thesaurus; Consejería de Educación y Ciência de la Embajada de España, 2000. 343 p. (Coleção Orellana – Colección Orellana; 12) ISBN 85-7062-250-7.
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