
Canção do escritor de peças (Bertolt Brecht)
Data 06/10/2013 10:50:52 | Tópico: Poemas -> Reflexão
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Eu sou o escritor de peças. Eu mostro Aquilo que vi. Nos mercados dos homens Eu vi como o homem é tratado. Isto Eu mostro, eu, o escritor de peças.
Como entram uns nas casas dos outros, com planos Ou com cassetetes ou com dinheiro Como ficam nas ruas e esperam Como preparam armadilhas uns para os outros Cheios de esperança Como marcam encontros Como enforcam uns aos outros Como se amam Como defendem seus despojos Como comem Isto eu mostro.
As palavras que gritam uns aos outros, eu as registro. O que a mãe diz ao filho O que o empresário ordena ao empregado O que a mulher responde ao marido Todas as palavras corteses, as dominadoras As suplicantes, as equívocas As mentirosas, as inscientes As belas, as ferinas Todas eu registro.
Vejo tempestades de neve que se anunciam Vejo terremotos que se aproximam Vejo montanhas no meio do caminho E vejo rios transbordando. Mas as tempestades têm dinheiro na carteira As montanhas desceram de automóveis E os rios revoltos controlam policiais. Isto eu revelo.
Para poder mostrar o que vejo Leio as representações de outros povos e outras épocas. Algumas peças adaptei, examinando Com precisão e respectiva técnica, absorvendo O que me convinha. Estudei as representações das grandes figuras feudais Pelos ingleses, ricos indivíduos Aos quais o mundo servia para desenvolver a grandeza. Estudei os espanhóis moralizadores Os indianos, mestres das sensações belas E os chineses, que retratam as famílias E os destinos multicores encontrados nas cidades.
E tão rapidamente mudou em meu tempo A aparência das casas e das cidades, que partir por dois anos E retornar foi como uma viagem a outra cidade E as pessoas em grande número mudaram a aparência Em poucos anos. Eu vi Trabalhadores adentrarem os portões da fábrica, e os portões eram altos Mas ao saírem tinham de se curvar. Então disse a mim mesmo: Tudo se transforma e é próprio apenas de seu tempo. Bertolt Brecht(1898-1956), in: Poemas 1913-1956, Ed. 34, 7a. Ed., 2012.
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