
Em transito
Data 19/09/2013 18:12:26 | Tópico: Poemas
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A rua estreita serpenteia entre as casas antigas O transito resume-se a um transeunte Que andando observa detalhes de uma cidade estranha. O seu medo é seu receio de está só. Caminhando solidário no seu caminhar Vai a monologar sobre detalhes De uma arquitetura histórica: Onde o belo é consumido por seus olhos.
Muito tinha de reclamar, Mais a quem? Quem iria escutá-lo? Na trágica conclusão Está seu modo de guerrear, Nada o impede de se exaltar: No calar da sua voz Resta-lhe o consolo de pensar.
As casas, internamente iluminadas, Deixam escapar pelas janelas Pequenos fachos de luzes, Que se misturam com iluminação da rua. O transeunte transpõe cada facho Como se cada um fosse um recado Avisando-lhe que não era o único A respirar neste logradouro.
Lá e cá encontra um carro estacionado, O transeunte indaga intimamente, Se caso aquele carro parado fosse seu: Já estaria em casa sem grandes preocupações, Ou estaria visitando um amigo, Ou passeando pela cidade. Um pouco lá adiante Encontra mais carros: Agora juntos
A curiosidade faz o transeunte Mudar de calçada para descobrir A razão de tal fenômeno: Será uma festa, um enterro Ou quem sabe uma reza Ou coisa parecida a uma missa? Sempre alerta ele vai desvendando Tal mistério E por fim chega a resposta do mistério. Era um restaurante.
E a imagem do restaurante Lhe aumenta a fome E a certeza que é ruim não possuir carro, Mas o seu salário não é suficiente Para adquirir um. De repente do nada Se materializam vários carros: Um atrás do outro Aumentando a inveja do transeunte.
Que olha para o céu E vê que está todo estrelado. A lua cheia lhe enche de esperança Que o faz pensar no futuro. Hoje o homem já pousou na Lua. No futuro vai ser a vez de Marte, Saturno, Urano E assim por diante: Até o infinito.
Porém, o homem Precisou de um veículo Para alcançar a lua E ele, coitado, não tem nenhum Para completar O Trajeto do seu trabalho Para sua casa.
O que posso fazer Se não andar: Pensa o transeunte. Onde estou Ainda falta muitos Passos para o sucesso, É preciso pensar numa solução.
E assim nem nota que saiu Daquela rua e entrou em outra rua, Mais arborizada, porém, menos iluminada: A luz do poste mal ilumina a calçada E as casas estão à escura. O transeunte percebe que se enganou E volta apressado para o caminho certo, Que lhe leva para casa.
Tropeça, quase que cai, Numa boca de lobo, Sem tampa. Estupidamente solta três palavrões E chama o prefeito da cidade com outro palavrão. Será que ele pisou em rastro de .... Agora falando serio O transeunte pensa Estamos mal servidos Onde já se viu rua tão mal iluminada.
Mais adiante ele avista Uma casa de janelas abertas. Cai nele uma vontade de olhar pra dentro da casa e ao olhar vê um casal a namorar a todo vapor, sem se preocupar em serem flagrados. o transeunte envergonhado por tê-los visto, acelera os passos negando-se a testemunhar aquele momento de amor desvairado.
Mesmo andando apressado Vai pensando cada vez mais na sua solidão: Feliz é aquele que está amando Feliz é aquele que está sendo amado Ele coitado está sofrendo o isolamento Só lhe resta o sonho e nada mais.
O dia foi estafante O coitado trabalhou na rua O sol escaldante o feriu no corpo inteiro A roupa incomoda e exala Um cheiro de suor azedado Que ficou retido entre a sua roupa e sua pele.
Se pelo menos ele fosse o Carlitos: O Herói sem causa O anônimo mais conhecido do mundo O senhor absoluto das grandes trapalhadas O saltimbanco bem sucedido O rei da malandragem. Deixa pra lá Vamos segui-lo a vagar pela cidade.
O coitado era o anônimo mesmo: Não era noticia do jornal Não tinha cartazes no cinema Não era exaltado pela crítica Não era convidado para festas Porem sempre era visto como um terrível estranho Que a qualquer momento se transformava Num violento marginal Que era procurado pela policia.
O transeunte chega a uma ponte embaixo da ponte o rio produziu um mangue e nesse mangue mora gente em palafitas feitas de madeira e zinco sujeita a todo tipo de doenças. lá de cima da ponte avistava-se um amontoado de seres: mulheres, homens e crianças Fazendo o transeunte pensar que existe vidas em estado de vida pior que a dele.
O que fazer? Onde tudo está contra todos, O mal é comum para todos que Formam a maioria sem prestigio: Do flanelinha da rua ao frentista de um posto Do operário ao funcionário publico do pescador ao vaqueiro do barraqueiro ao pequeno comerciante todos suam a camisa e se dão sempre mal.
Meu caminho só me leva para casa O transeunte se desespera Ao pensar em tal sina Preciso modificá-lo Preciso fazer algo que me livre da miséria Hoje tenho onde morar, mas, amanhã?
Pensando e andando Andando e pensando: O transeunte vai refletindo sobre a vida Tudo pesa contra ele, tudo é indiferente á ele. A vida é cruel, muito mais de que a pior vida mostrada no cinema Tudo aquilo que rola na telona, É mentira, o ator vive rico Cheio de mulheres e de amores Por interpretar a vida miserável.
Mais o que fazer? Naquela altura da vida O transeunte se sentia vencido. Com vinte anos de idade Ele já se achava no fim da vida: Não ia testemunhar a virada do século XX Não ia deixar herdeiros e herdeiras Não ia ter uma amada para odiá-lo. O que lhe restava era andar Naquela rua esquisita e sombria, Que lhe causava susto e arrepios Só em pensar que estava só E desprotegido.
E assim caminhava E assim ia a pensar o transeunte Não tinha motivos para apressar os passos Ninguém estava lhe esperando Há não ser o dono da lanchonete Onde ele fazia a última refeição do dia Que era uma sopa e um pão Frances como complemento.
O que farei amanhã... Há não ser trabalhar, Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Preciso fazer outra coisa Preciso cuidar da minha mente Torná-la sempre ativa e criativa Preciso fugir do tédio Da mesmice doentia Que me destrói aos poucos Que me faz um solitário.
Pura abstração do transeunte O coitado nem percebia que Em certo momento Ele passou a dividir a rua Com outros transeuntes E que não estava mais a transitar Em uma rua deserta.
Ai a história muda um pouco, Ao notar a presença de outros, O coitado começa a pensar: Como seria bom se todos Que estão nesta rua Tivessem algo em comum E se conhecessem; Se todos fossem amigos E pessoas confiáveis; Se todos prestassem um favor ao outro E não deixassem ele triste e solitário Nesta rua triste e escura.
Pura utopia Sem muita esperança De concretizar tal utopia Ele apressava os passos E assobiava uma música de Chico Buarque. Depois a musica dos anões da Branca de Neve Eu vou eu vou pra casa agora eu vou.... E assim esquecia de todos os seus problemas de solidão.
Chicão de Bodocongó Campina Grande, 11 de dezembro de 2012 Às 21h24min
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