
LUAR DE VERÃO (ÁLVARES DE AZEVEDO) - HUMOR NA "LIRA DOS VINTE ANOS"
Data 16/09/2013 12:18:11 | Tópico: Artigos
| O que vês, trovador?—Eu vejo a lua Que sem lavor a face ali passeia; No azul do firmamento inda é mais pálida Que em cinzas do fogão uma candeia.
O que vês, trovador?—No esguio tronco Vejo erguer-se o chinó de uma nogueira. Além se entorna a luz sobre um rochedo Tão liso como um pau-de-cabeleira.
Nas praias lisas a maré enchente S'espraia cintilante d'ardentia Em vez de aromas as doiradas ondas Respiram efluviosa maresia!
O que vês, trovador?—No céu formoso Ao sopro dos favônios feiticeiros Eu vejo—e tremo de paixão ao vê-las— As nuvens a dormir, como carneiros.
E vejo além, na sombra do horizonte, Como viúva moça envolta em luto, Brilhando em nuvem negra estrela viva Como na treva a ponta de um charuto.
Teu romantismo bebo, ó minha lua, A teus raios divinos me abandono, Torno-me vaporoso, e só de ver-te Eu sinto os lábios meus se abrir de sono.
Obras, v. 1, 1853, Lira dos vinte anos – 2ª parte.
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O eu lírico (a voz que “fala” no texto) por três vezes pergunta: - O que vês meu poeta? Na primeira estrofe, uma das respostas: - Eu vejo a Lua!... Na segunda estrofe, outra resposta: - Eu vejo o chinó (cabeleira postiça, peruca; na poesia é de um tipo de cipó muito fino que cresce em algumas árvores também conhecida como barba-de-velho) de uma nogueira!...
E na terceira estrofe: - Eu vejo as nuvens!...
Lua, o chinó de uma nogueira e nuvens, palavras constantes no universo poético do jovem autor, ou seja, termos universais que acompanham a poesia desde tempos imemoriais, desde épocas inenarráveis.
É uma poesia de vinte e quatro versos (cada uma das linhas gráficas do poema equivale a um verso), dividida em seis estrofes (conjunto de versos) de quatro versos (quadras), tendo como sistema de rimas, a rima do segundo com o quarto verso. São versos decassílabos (dez sílabas poéticas).
Vejamos a escansão (divisão) do conjunto de versos da primeira estrofe: “O-que-vês- tro-va-dor?-eu-ve-joa-lu-/a” “Que-sem-la-vor-a-fa-cea-li-pas/sei-/a” “No-a-zul-do-fir-ma-men-toin-da-é-/-mais-pá-li-da” “Quem-cin-zas-do-fo-gão-u-ma-can-dei-/-a.”
“Mergulhando” nas águas límpidas desse “Luar de verão”, podemos entender que o jovem e romântico Álvares (desaparecido antes de completar vinte e um anos) era também ‘discípulo” da Natureza, vejamos uma parte do seu universo poético: lua, luar, o azul do firmamento, o tronco da nogueira, o rochedo , o pau de cabeleira; as praias, maré, ondas, maresia, o horizonte, as nuvens, etc.
Deixando assim de ser o poeta lúgubre de termos macabros como cadáver, morte, cemitério, etc., descrito nos livros de história literária e adepto do mal do século (melancolia), sonhador doentio e um jovem com “vontade” de morrer prematuramente.
Augusto de Sênior. (Amauri Carius Ferreira) (FERREIRA, A. C.)
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