
NATHALIE
Data 31/08/2013 12:46:37 | Tópico: Crónicas
| Nathalie recebera esse nome,por sua mãe ser fã de Julio Iglesias e dessa canção em particular. Teve uma infância boa na Espanha, mas a família mudou para o Brasil, quando entrava na adolescência. Ela perguntou à mãe: _ Por que o Brasil e não outro país latino, onde se fala nossa língua? _ Porque lá temos família. O idioma se aprende rápido e fácil. _ Ouvi dizer que o português é uma língua complicada, tem palavras em demasiado... _ Aprende-se! Ademais, seu pai já vai para se empregar por lá, com a recomendação de seu tio. _ O que há de se fazer? Vou começar a separar minhas coisas. _ Sim, faça isso; partiremos em uma semana.
Nathalie virou-se e foi na direção de seu quarto. Parou ao entrar, para olhar cada detalhe de onde passara todos os momentos de sua vida até então.
Mudaram-se finalmente: Novo continente, novas esperanças... Tudo dera errado entretanto...
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Enquanto trabalhava no bar, Nathalie pensava: O quanto uma decisão precipitada pode levar uma pessoa? Estava trabalhando ali para ganhar seu sustento, desde que sua mãe ficara viúva e recebia uma pensão diminuta, que mal pagava as contas básicas... O pai morrera de doença grave, seis anos atrás, logo que mudaram para o Brasil. A mãe resolvera ficar. Não voltaria para sua pátria derrotada. Nathalie terminou os estudos do secundário, mas a faculdade ficou para trás. Precisava ajudar a mãe a se manter no novo país que estavam. Trabalhava de noite em um Piano's Bar, e fazia um curso técnico de enfermagem durante o dia, para ter uma profissão séria.
Nathalie lembrava da Espanha como se tivesse saído de seu país naquela semana... Eram essas lembranças que a motivavam seguir em frente. Assim que terminasse seu curso, trabalharia duro fazendo plantões em clínicas particulares, porque essas pagavam relativamente melhor que o serviço público, até que depois de juntar um bom dinheiro na caderneta de poupança, viajaria para visitar sua Espanha querida e quem sabe, conseguir um emprego por lá de enfermeira? Sabia que não seria fácil: Afinal, a Espanha estava em crise como toda a Europa, e seu diploma de enfermagem não valeria por lá, mas ela tentaria fazer um exame que validasse o seu.
Planos! Mas nada disso se dera. A mãe desenvolveu a síndrome do pânico depois de passar por dois assaltos no Rio. Outra vez ficou em meio a um tiroteio entre a polícia e marginais na rua onde passava. Por último, fora outro tiroteio, em uma passarela da Avenida Brasil. Mudaram-se de município para outro relativamente mais calmo e ficou tudo mais difícil para Nathalie, que agora estava mais distante do curso e do trabalho. Levava mais tempo para ir e voltar para casa. A mãe sentia-se solitária... Nathalie tinha um olhar triste, como dizia aquela música tão bem interpretada pelo seu compatriota...
Resolveu esquecer de vez seus sonhos de voltar à terra natal. A Espanha ficara para trás, além do oceano e seria apenas cultivada em suas memórias dos tempos de meninice.
Nathalie lia uma poesia, enquanto não chegava os primeiros fregueses do bar:
Lágrimas De Outrora
Morremos aos poucos desde o dia que nascemos O maior desgosto de viver, é a certeza disso acontecer.
Um nó na garganta inseparável do ser humano Palavra muda. Há dor, mesmo que se tenha em volta, algum amor.
Não é minha culpa, os desatinos de outros, Mas, pago por eles...
O nó a que me referi, são lágrimas sentidas Vindas de uma tristeza, de nada ser mudado em minha vida....
Escrevo então. Essa é minha única auto ajuda. Bastava apenas ter um ouvinte aos meus queixumes! Mas o analista se paga. O amigo, escuta de coração. Pena, não ter um ombro que possa chorar minhas mágoas! Os gritos se calam. Permanecem mudos na garganta.
O nó só se desata, quando coloco as palavras no papel. Dizem que faço drama. Que culpa tenho eu? A vida escreve nossa novela particular... Apenas escrevo, Não posso me revoltar.
Fátima Abreu
*A CANÇÃO: NATHALIE
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