
CORPO SEM ALMA
Data 23/12/2007 03:55:39 | Tópico: Poemas -> Desilusão
| CORPO SEM ALMA
Este sopro de vida, que me agita, E tem feito girar, maquinalmente, É qualquer abstracta, que não grita: Desisti de pensar que já fui gente…
Nasci sem culpas; quis viver num mundo, Que só me apedrejou, desde criança! Lançou-me num abismo tão profundo, Onde não entra a luz da confiança.
Atacaram-me vermes, com furor; Ai, tantos! Nem sei qual o mais temível! Acabou por ser vão o meu vigor. E reagir, sem ele, é-me impossível…
Viver sem ilusões, é não ter nada Que justifique a roupa e o alimento! Carece de razoes esta jornada, Que pesa tanto, como o meu tormento.
Tendo regularmente algum salário, Fazem-me as aparências refilão. Que me importa cumprir um eterno horário, Se em troca do trabalho há menos pão!?
Qual manequim andante, sem vontade, Acompanho os demais, no dia a dia. Em nada tenho fé, nem ansiedade: Envolve-me cruel anestesia…
Julgo que infelizmente esta doença, Ai ponto que chegou, não tem mais cura! Companheira fiel, desde a nascença, Nem me abandonará, na sepultura…
Fui-me sentindo aos poucos mutilado: O vírus do fracasso, o meu algoz! Absurdo era lutar, amordaçado, Pois ninguém ouviria a minha voz!
Num colete-de-forças me envolveram, Destruindo o melhor que havia em mim. Fôlego e coração me mantiveram, Para o martírio ser maior, assim…
O cérebro não sabe reagir: Impedem-no de tal as decepções. Todas as noites, sem poder dormir, Desespero, no leito, em convulsões…
Inconcebível, um jardim, sem flores; Um corpo já sem alma, como o meu! Rude apatia congelou-me as dores, E apenas o desdém sobreviveu…
Efeitos dum lutar quotidiano, Com toda a gama de dificuldades. Sou hoje um corpo amorfo; o ser humano Sucumbiu, sem talvez deixar saudades…
Encerrei-me em mim próprio, avaramente: Quase desconheci vozes amigas… Revoltado, fugi de toda a gente; Adeus, pura amizade; não me sigas…
Deixa-me só; não vou ser egoísta: Não te quero arrastar à perdição! Não há boa vontade que resista Ao peso de tamanha frustração!
Não há ingratidão; porém, nobreza, No derrotismo deste vacilar! Triste conformação, mais que incerteza: Sendo estátua, não vou raciocinar…
Alegria ou furor, já nada existe: Sou massa óssea, mas sem reacção! O maquinismo humano, que persiste, Manobra tudo; sentimentos, não!
Ouço pregar a paz, fazendo a guerra; Falam mais da moral os opressores. E quem mais desrespeita as leis, na terra, São, por descuido, os bons legisladores…
A revolta dum ser inanimado É fraca; não detém o cataclismo… Oh, raça humana, não terás pensado Que quem te via matar, é o teu cinismo?!...
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