
Cotidianos de uma doença urbana
Data 21/12/2007 14:55:56 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| Eu queria vir lhe falar, o que é que há entre nós Mas você percebeu, no relógio viu tempo o passar Embora andássemos sozinhos, nunca estivemos sós Pois meu grande amor, com você sempre pude contar... ~ Então veja no horizonte, o sol ainda não despontou Mas o trabalho chama, e nos faz pular cedo da cama E a sina de um brasileiro que ainda não se cansou E pelo Brasil, sempre as lágrimas derrama... ~ Vejo pelas ruas, a pobreza das condições humanas Quem é que consegue ver isso, e ser um pouco racional? Prefiro não pensar, sei que isso é uma doença urbana Afeta pretos, brancos, amarelos, a mistura multirracial... ~ Vejo as pessoas no morro descendo a ladeira Rostos cansados revelam toda a dor que esse povo sente Mas carregam consigo esperanças tão verdadeiras Ser feliz nessas condições, até parece ser incoerente... ~ O avião cruza sobre nossas cabeças como uma luz Quantos olhos lhe observam, queriam poder também voar É o desejo que poucos alcançam, mais ao menino seduz Pois em seu brinquedo, ele pensa que o céu pode tocar... ~ Vejo as casas de tolerâncias, elas vendem o proibido Bebidas e mulheres, que tem quase o mesmo valor A vergonha de pecar, a desgraça tem lhe perseguido Mas não os incrimino, pois a vida lhes ensina na dor... ~ E também vejo as prisões e seus prisioneiros Os carros nas ruas, os ônibus nos corredores Há poucos homens ricos, mas muitos sem dinheiro E o céu está nebuloso, num cinza que apaga as cores... ~ Eu quero a luta, mas não quero a guerra meu Deus Mas eu sei que o pão é a arma de um trabalhador Os sonhos deles, quase que se misturam aos meus Relações utópicas, irmãos de sonhos, mais um sonhador... ~ E o que é que há entre nós, nós precisamos revelar Pois nesses cotidianos, sofremos destas doenças urbanas Esquecemos assim de admirar a flor, até mesmo de amar Tudo passa diante aos olhos nesta nessa vida doidivanas... ~ Mas graças a Deus você existe, e assim tenho conforto O dia vai passando lentamente, as horas parecem parar E bete o sinal da saída, e de cansaço estou quase morto Mas renova-se a força para correr, para poder lhe reencontrar... ~ E novamente os sinais, as buzinas, o ônibus lotado À volta para casa, ruas escurecem, postes se acendem Mas os olhos pela janela, insistem em não deixar de lado A penúria que me faz sofrer, e aos meus olhos não mentem... ~ Porque olho ao morro, barracos coloridos, paredes sem reboco Mas as crianças ainda brincam, e um dia serão homens Os fantasmas exorcizam, como a visão de um bêbado louco Eu já não sou mais o mesmo, estas realidades me consomem... ~ E no meio de tantos sufocos, ainda nota-se muitos sorrisos Mas eu estou quase chegando em casa, até sinto teu perfume Que vem espessando-se de vida, e fala de amor tão conciso Então clareia meu caminho, faz-me seguir teu lume... ~ E assim que adentro meu lar, o seu beijo me abençoa Mas a fome castiga, e o corpo clama por um banho E no banho entre as espumas, peço que me envolva Pois preciso de seu alento, a vida tem deixado-me estranho... ~ São os cotidianos de uma doença urbana que nos contamina Os medos, as angustias, as neuroses de quem tenta viver A humanidade desumana, e para essa dor não existe aspirina Mais ainda bem que eu lhe tenho amor, para isso poder esquecer... ~ Mas a noite adentra, e o sono chega, vou poder sonhar E tu estarás ao meu lado, abraçando-me o pesadelo se emana Creio assim que tudo passa, sei que com seu amor posso contar Para apagar da mente, os cotidianos de uma doença urbana...
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