
IMPOSTURA
Data 19/12/2007 12:40:36 | Tópico: Poemas -> Surrealistas
| Amigo, se tens dinheiro, Podes entrar livremente, Que esta casa é toda tua. Folgo em ver-te por parceiro! Os outros, que nem são gente, Passem ao largo, na rua!
Reinando a hipocrisia Na nossa vida diária, Que poderemos fazer!?... Honestidade é mania Que caducou, solitária, Em quem não sabe viver!
De enxada firme, na mão, Luta o rude camponês, Do nascer ao pôr do sol! Não tem qualquer instrução. Mas adora a pacatez, E o cantar do rouxinol!
Porém, se fica doente, Desanima, vai morrer Sem consultar um doutor! Este não é indulgente: Fiado?!...não pode ser! Curar, tem muito valor!
Perante a miséria alheia, É uso recomendar Amigo, tem paciência! Porém a barriga cheia Dispensa-nos de pensar Em toda e qualquer carência!
Senhoras aperaltadas Julgam-se muito importantes, Cumprimentam-se de beijo. Bonecas desengosadas, Pecando por petulantes, Andam mortas de desejo...
Viver nesta sociedade, Com sorrisos impostores, Foi sempre a melhor maneira! Amordacem a verdade, Submetem-se aos opressores, Vassalos, a vida inteira!
Que pode um pobre diabo Fazer em sua defesa, Num mundo de hipocrisia! Resta-lhe enrolar o rabo, Vergado à sua fraqueza, Rastejando, dia a dia!
Vejam aquele engenheiro A dar ordens importantes, Ridículo, autoritário! E a submissão do pedreiro, Agora, tal como dantes: Quase mendiga o salário
Perito em transformações, É notável troca-tintas, Esse aldrabão advogado. Em acesas discussões, Mudou em farsas distintas, Um inocente em culpado!
Mas, isto de tribunais... Há tantas razões de queixa... Abusas de negligência... Os crimes são mais e mais, Porém a Justiça deixa Sempre impune a delinquência?
Quando uma jovem solteira É mãe, vem logo a censura, Ninguém lhe quer dar a mão! Tendo a dor à cabeceira, Dorme em leito de amargura, Num quarto de frustração!
Se outra pratica um aborto, É criticada também Por destruir uma vida! Fala-se mal por desporto, Pois ajudar não convém, Se a caridade é fingida!
Expulsaram duma empresa Um pobre trabalhador Por roubar um chocolate! Porém não causa surpresa Que um digno administrador Leve milhões! Ninguém bate!
È esta a justiça humana! Não temos nada a fazer Nem um santo, que nos valha! Qualquer um ao pobre engana! E só consegue vencer, Quem pouco ou nada trabalha!
Quando os jovens namorados Olham só para a beleza, Temos um divórcio à vista! Erraram! Estão saturados! Sem amor, sexo é frieza! Não há ninguém que resista!
O namoro é franco estudo, Onde deve haver coerência, Entusiasmo não basta! Perdido este, vai-se tudo! Tolerar é penitência, Que a grandes males arrasta!
Oh, vida, és uma impostura! A Força é quem nos governa, Jamais triunfa a razão! Ai, se este brado é loucura, Na minha vida revolta interna Pesa muito a solidão!
|
|