
[sabes meu filho a criança]
Data 13/06/2013 10:12:55 | Tópico: Poemas
| sabes meu filho a criança que estende a mão não espera em pose pelo traço de giovanni bragolin
sequer sonha com o fogo que desse sente ficará como única confidente da linguagem secreta das labaredas
não é o fogo que a irá libertar da sua condição
não pede a eternidade mas o instante
sabes ela não corre pelas ruas com o sorriso nos lábios e no olhar
embora também ela saiba do sorriso
inventa-o quando o resgata ao rosto fechado a sete lágrimas que amiúde sem fingir lhe rasgam a face
sabes essa criança
(gostava agora de ter a ironia do xosé maría álvarez blásquez quando escreve
non é certo que os nenos teñan fame
gostava mas não possuo a faca que corta o pão e o serve friíssimo aos outros aos indiferentes fraqueza minha confesso)
porque essa criança esta criança que estende a mão na esperança de uma moeda tem como preciosidade sua exactamente a fome
sei que de poesia pouco há no que te digo filho mas a poesia também deve ser isto
voz capaz de dizer o mundo o mundo concreto por mais vil que o mundo seja
sabes imagino a criança como o vagabundo do manuel da fonseca
o que leva o sol na algibeira
sempre me sinto mais reconfortado
vale mais imaginá-lo assim do que a moeda que se entrega
que essa mal alivia o peso que se sente a cada passo
sabes todos nós carregamos uma pedra igual à que os deuses deram a sísifo
a nossa própria pedra
dia após dia sentimos tal como refere albert camus que a pedra faz parte de nós
tal como este relógio já faz parte de nós
tal como a máquina com que fabricamos o pão nosso de cada dia
sabes não é justo que a mão permaneça vazia e como no cinema vistamos a pele de figurantes
passemos por passar frente à câmara do mundo
levando secretamente no bolso uma carteira repleta de maleitas pronta a ser aberta quando o olhar da criança nos bata de frente
sabes meu filho agora que cheguei a casa
e sem saberes contigo falei resta recolher-me ao abrigo de um verso da clara maria barata em que o sol lhe disse que amanhã acorda cedo
talvez amanhã sob o signo de um sol renovado passemos pelas ruas das nossas cidades e a criança esqueça a mão e nos estenda um sorriso
Xavier Zarco
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