
[eu vi]
Data 14/04/2013 18:09:39 | Tópico: Poemas
| eu vi a loucura do mundo no mundo que me coube observar como se a loucura fosse um copo de vinho sobre o balcão à espera das minhas mãos da minha sede da minha boca como se o vinho fosse a esponja que apaga o giz na ardósia da minha memória
eu vi a fogueira reacesa da inquisição erguer labaredas apaixonadas pelo corpo dos homens das mulheres que aguardam a vez na fila do desemprego com seus olhos resignados esperançados enquanto a língua de fogo como que os beija enquanto gritam em silêncio
eu vi as bruxas em redor surpresas com os homens as mulheres sem nome com um talão na mão exibindo o número que tarda no painel electrónico as bruxas a quem só resta a loucura que reclamam as chamas só para si mordendo a madeira por morder com feitiços de água pura de inveja
eu vi uns miúdos esfolarem o tempo procurando a solução do tempo o fim do tempo somando os número da roleta de um a trinta e seis como se na soma se consumasse a aposta a matança do tempo
eu vi uns indivíduos sonhando a gravata distante da fogueira longe de qualquer chão longe de qualquer ramo confiando o seu caminho no fundo de uma garrafa qualquer sonhando a gravata apostando na madeira a arder
eu vi o crepúsculo nas mãos dos homens das mulheres dos velhos das crianças o crepúsculo nos gestos que não nascem e foram os gestos presentes nos dias do pão
eu vi o charuto o uísque o champanhe o caviar nas janelas dos escritórios sem rosto ou nome o riso do dinheiro a gargalhada da fábrica que fecha e arregaça as saias para atravessar os continentes os oceanos em busca de uma foda mais barata que foda com prazer as cotações
eu vi as salas de chuto repletas mapas espalhados espelhados em cada olhar desbravando caminhos para o paraíso longe de tudo o que é mundano de tudo o que é humano e vi-os a caminhar sentados deitados encostados à parede ocasional e vi-os com o terror consumindo-lhes a queda para um purgatório sem fim
eu vi a loucura do mundo no mundo que me coube observar e afogo a minha própria loucura num copo como se buscasse ao lábios da cicuta os braços da cicuta o regaço da cicuta como quem descobre a última a derradeira verdade e com ela e por ela se entrega à morte
eu vi o céu em chamas sem futuro seco estéril como os campos do meu país alfaias artefactos artes em letargia como histórias de antanho à espera de um príncipe qualquer montado num cavalo branco qualquer que os beije e redivive
eu vi a morte olhos nos olhos e a morte tocou-me na fronte como se o meu destino fosse ver a morte na rotação da terra sob o eixo da estupidez a morte rindo e rindo-se para mim mostrando os corpos queimados derramados espalhados mutilados pela arte suprema da guerra inventada para o supremo gozo de alguns
eu vi mais do que o que havia para ver e mato-me lentamente diariamente com a esperança dentro dos bolsos para amanhã não acordar não ver as notícias que nos impingem e que mesmo sem as requerer recebemos
eu vi o carro fúnebre passar engalanado frente ao monumento de todos os prazeres e comprar as flores como quem compra um corpo para consumir em uma hora numa das mais banais pensões que couber na imaginação
eu vi allen ginsberg imolar-se dentro do poema como se o poema fosse o corpo de fénix renascendo das cinzas fundando-se nas cinzas como um sísifo que sonha o topo do monte para ver a pedra perder-se pelas sombras monte abaixo vi-o uivar não pela sua geração mas por esta que como mosca sai do meu país não por falta de merda mas por excesso da mesma
eu vi camões vieira bandarra pessoa pascoaes duarte tantos outros eu vi-me alinhados como em fuzilamento contra uma parede uma vala comum por perto e o zeca a cantar os vampiros ele também alinhado contra a parede uma vala comum por perto e tiro algum nos atira contra a parede uma vala comum por perto que tiro algum nos apaga a voz
eu vi que quando nos dizem que o futuro é devemos dizer que o futuro é o que nós queremos
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