
A última ceia
Data 29/03/2013 22:10:29 | Tópico: Poemas
| Estão todos presentes à mesa mas só um sabe que o gesto não se repetirá. É um homem que veio de longe cumprindo o delírio febril dos profetas; a antiga promessa de uma chegada escrita na memória branca das pedras. Em silêncio enche doze taças e dá a beber o sangue da sua herança; o sangue de um sacrifício ainda por cumprir, enquanto contempla a felicidade breve nos rostos que, à direita e à esquerda, o cercam. Uma estranha visão lhe incendeia o olhar. Um momento de sombra que o atravessa, como o pastor debruçado sobre o seu rebanho ao pressentir a aproximação da tempestade, fixando ternamente o lugar onde se senta a ovelha que irá atrair a demência dos lobos. Um manto branco ressalva a luz que o cobre. É um rei, mas nada reclama para si, basta-lhe o saber que é escutado, e que alguém sobrará para lhe perpetuar o nome. Ocupa agora o centro da mesa. De pé com os braços estendidos para a frente lentamente reparte o pão como quem vira a última página de um livro que não poderá voltar a ser fechado.
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