
Desespero romântico (republicado)
Data 19/03/2013 18:51:24 | Tópico: Poemas
| Só, na penumbra, Depondo um caule seco Na tigela, Uma questão me ressumbra Sob a luz da vela: Que nos resta Senão o espinho E esta vazia cela?
Haverá fortaleza, Haverá natureza Que suporte isso Neste terreno cediço? Franca beleza Que não perca o viço?
Ó louca lua, Vermelha e nua, Dize-me ao menos O que é o ser Nesta vida de somenos? Dize-me que são Estas falanges De gente morta e exangue?
Dize-me quem são, Tu que, súbito, Demudada e lenta Surges rubra, Sanguinolenta, Carnívora Nesta atmosfera De corpo e sangue.
Dize-me o que é Esta gente langue Que volta pra casa Silente e estanque Seguindo num bonde Que chega aonde De paludes sombrios?
Dize-me o que é, Sob esta atmosfera De pântano e fera, Tanta gente que espera Ouvindo o carrilhão Vibrando da catedral E de abissal região!
Dize-me que são Os mares e marés, O sol e as estrelas. Sobretudo as estrelas! Essa louca vontade Que tenho de vê-las, De tê-las E compreendê-las.
Fala-me do quark E do quartzo, Tu que surges Na janela do meu quarto, Tu que a tanto nos observas Como a um filho Após o parto.
Dize-me quem és, Filha de Théia, Irmã gêmea da Terra, Que pelo céu erra Desnuda e atéia!
Dize-me o que são Tanta forma e estrutura, Tanto véu de loucura Que em si tudo enclausura.
Dize-me o que são Tanta vida Ao rés desse chão E esses corpos no escuro Que alheios caminham À própria matéria Contra toda a sorte, À espera da morte Em solitária clausura.
Dize-me o que são Tanta nau naufragada, Tanta onda cansada, Tanta vida afogada, Tanta gente sem glória, O Ser, o Tempo e a História!
O que dizes? Nada dizes! Apenas sussurras Por sobre as marquises:
- Intrusa, irrompida vida, Ainda recente ou finda, Inunda logo a avenida E tua cela vazia...
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