
A Morte não Existe
Data 09/12/2007 20:02:47 | Tópico: Contos -> Tristeza
| A MORTE NÃO EXISTE
Isabel chegou e pousou as suas mãos nas costas da minha cadeira. Balancei ligeiramente a cabeça e notei que os seus olhos reflectiam um certo mal estar. Aquele verde penetrante, estava imerso num caudal de lágrimas, pronto a soltar-se. - Que tens Isabel? – perguntei. - Sabes que há uns tempos que me ando a sentir mal. Um cansaço constante e umas dores de cabeça infernais. Certamente que Isabel estava a precisar de umas boas férias. Trabalhava muito e eu sabia bem o quanto isso a tinha desgastado nos últimos tempos. A empresa expandiu-se e todos nós tivemos que suar abruptamente. Reparei então que as suas mãos tremiam, encostadas à minha face. Estavam frias e húmidas. - Estás a deixar-me preocupado Isabel. O meu rosto estava agora estranhamente padecente. - Fiz o teste de despistagem ao VIH. Sou seropositiva. Aquelas palavras soaram-me a sentença de morte. Não conseguia imaginar uma amiga, jovem e bonita, morrer de uma doença pérfida e humanamente incompreensível. - Como foi isso acontecer? – estava perplexo. - Francisco, simplesmente aconteceu. Não perguntes como. Diz-me apenas como posso ainda ser feliz. Não respondi… esfreguei as mãos no meu cabelo, hábito que adoptei quando surge algum problema e, deixei-me levar pelos pensamentos que afloravam na minha consciência. - Para começar, vais fazer as malas. Hoje é Sexta Feira, a meteorologia anuncia calor para o fim de semana e o mar aguarda-nos. Isabel sorriu… naquele esgar de rosto, reparei que as almas perpetuam-se em corpos frágeis… a morte não existe! Viajámos entre lágrimas e risos… segredámos confidências sinceras. Chegados ao destino, avistámos as ondas, que espumavam caudais brancos sobre as rochas negras. Em silêncio, contemplávamos a voz irada do oceano. - Tudo é tão perfeito, Francisco. Passamos pela vida e ignoramos o que se estende para além do horizonte. Esfumamos o belo, como se ele nunca existisse. Isabel estava agora comovida. Pensei se quando somos sentenciados de morte, aprendemos que a vida tem muito mais que o banal do quotidiano. - Isabel, vamos caminhar. Arregaça as calças.. descalça-te e deixa que os pés toquem o infinito entre mar e terra. Perpetuemos a nossa amizade, ao som das trombetas de Neptuno e do canto ameno das Sereias. - Sempre tão poético, meu querido amigo. Fiz uma expressão de desconfiança, que logo se desfez em mais uma gargalhada. Era já noite, quando abandonámos a praia. Uma leve brisa fresca tocava os nossos corpos cansados. As pernas reclamavam descanso. A caminhada tinha sido longa… as brincadeiras, mais que muitas. Deitámo-nos nas areias inertes e a lua brilhou para nós. - Acreditas que existe vida para além da morte? – perguntou-me Isabel. - Sim… acredito mesmo! Nada faria sentido, se assim não fosse. Mas a tua viagem ainda vai demorar. A ciência evolui a cada dia. As esperanças renascem sempre… - Hummm – murmurou com tom de incredulidade. Adormecemos. Quando a manhã surgiu, reparámos que os nossos corpos estavam cobertos por uma areia fina… de um perfume suave… - Francisco, acreditas que as amizades salvam? - Se os sentimentos que constroem as amizades são verdadeiros, então a eternidade pertence-nos. - Tal como as estrelas pertencem ao céu… - Isabel… tal como as nossas almas, pertencem ao infinito. Os dias passaram… a rotina voltou! Isabel iniciou os tratamentos. Falávamos quase diariamente. Teve uma paixoneta pelo Diogo, médico auxiliar no Instituto de Doenças Infecto-contagiosas. Eu fui destacado para a Suécia. Uma filial da empresa… um óptimo ordenado. Condições de vida excelentes. Constantemente enviava e-mails à Isabel. Sempre preocupado com o seu estado de saúde… sempre em busca de resultados positivos. Passaram dois anos e Isabel encontrava-se melhor. O Diogo tinha sido um companheiro extremoso. Era uma presença importante no caminho de Isabel. Um trilho cujo fim, era sempre uma incógnita. Num dia frio de Inverno, cheguei a Portugal para uma formação. Visitei a família e calcorreei lugares preenchidos pela saudade. Decidi então ligar à Isabel. Queria vê-la… estava ansioso por esse momento. Fazia no dia seguinte um mês, desde o nosso último e-mail. Estranhei quando após larga insistência, ela não atendeu o telefone. Liguei para o hospital. - Quero falar com o Dr. Diogo Silva, por favor. - Um momento. Vamos transferir a sua chamada. O meu coração acelerou. A música da chamada em espera irritava-me profundamente. Sempre fui impaciente… - Estou?? - Diogo, é o Francisco. Tudo bem? A respiração do outro lado da linha tornou-se ofegante. A voz emudeceu. Percebi de imediato. Algo de muito grave tinha acontecido. - Diz-me que está tudo bem, Diogo. - Francisco, a Isabel morreu! Não consenti no meu pensamento aquela palavra! Não e não… a morte não existe! - Conta-me o que se passou. Quero entender… preciso de saber… - a minha insistência era agora doentia. Após silêncios humedecidos por choros inconsoláveis, Diogo contou-me o sucedido. Uma pneumonia a que Isabel não resistiu. Estava muito fraca devido aos tratamentos. Foi fatal! Prometi encontrar-me com o Diogo no dia seguinte. Naquele dia não era capaz de o fazer. A notícia da morte da minha amiga endurecia o meu coração… gritei, injuriei tudo e todos! Havia uma coisa a fazer. Entrei dentro do meu carro e dirigi-me para a praia… só aquele cenário que tinha sido testemunha de uma das amizades mais belas e duradouras, podia amenizar a minha dor. Caminhei ao por do sol… pisei areias infinitas e mergulhei nas águas gélidas do abismo marinho. Encostei-me a um rochedo, imergente da espuma feita de fúria e desespero. Ao longe, soou uma melodia cálida. Serenei o espírito e busquei a voz. Ali… no crepuscular luar, encontrei a Deusa perdida da noite. Mareada por luzes soltas, olhou-me. Reconheci o rosto de Isabel… e com um sorriso, desbravou-me ímpetos de amor e de amizades felizes!
A MORTE NÃO EXISTE!
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