
O COVEIRO
Data 07/12/2007 01:10:40 | Tópico: Poemas -> Sombrios
| <br />Cada manhã, cada novo dia. Com os olhos carregados de penumbra, e um punhado de pó em cada mão, chegas tristemente, até o torrão de terra que haverás de remover. Até que uma nova cova prepares para o funeral à tarde.
A terra te conhece, e a teus passos. Os pinheiros te conhecem, mas não sorris. As cruzes são tuas amigas, pois sempre as colocas nas sepulturas. A terra sabe reter fundo o que sepultas, e a cuspir mais tarde o que ainda tem vida. Homem soturno e sem alegria.
As vezes paras para acender um cigarro, com teus dedos, ressêcos e afilados. Teus dedos que apartam caveiras, ossos, vermes, roupas, jóias, algum retrato ou talvez nada. Algum pedaço de gente, todavia.
As vezes paras e cruzas os braços, e apóias a cabeça em algum nicho. E descansas os pés sôbre uma lápide. Compreendes, homem apagado, aqui : Jogas com a morte. Que rondas a morte. Que a morte te tem, sem ter-te de todo.
Porém um dia qualquer. Um dia mais que outros, te tocará a morte mais depressa, te tocará e tentará enterrar teus passos.
Tu não serás estranho no outro lado, lá naquele lugar onde já estivestes. Nem sentirás, gelado, o primeiro frio. O frio que os mortos sentem sempre quando estreiam suas tumbas.
Nessa noite chiará o morcego. Aquele que espantavas sempre das paredes. O que levavas sempre na memória. O que te fez tremer aquela tarde.
A terra sentirá em suas entranhas, um peso que não teve mais que a momentos, e estranhará tua calma eternamente.
Nessa noite gemerá mais forte A cancela de ferro que guarda a entrada do Cemitério.
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