
paragens - uma outra versão
Data 23/01/2013 16:12:44 | Tópico: Textos
| Ontem vi-te, na paragem do autocarro que chega sempre adiantado. Estava lá ao canto, ao pé daquele indivíduo de chapéu cinzento e gabardina cor de café com leite. Não me viste. O autocarro chegou, tu entraste e mais meia dúzia se seguiram. Eu entrei depois de ti e enquanto escolhias um lugar junto da janela, fui andando lá para trás na confusão dos demais. Sentei-me no banco traseiro, mas com um angulo de visão que me permitia olhar-te sem que tu me visses a mim. Levavas no rosto a tristeza das nuvens escuras do dia e a amargura de quem se arrasta, sempre pela sombra, de uma existência madrasta. A certa altura abriste a mala e tiraste lá de dentro um pequeno espelho que seguraste numa das mãos enquanto a outra procurava ainda lá no fundo um pequeno frasquinho parecido com baton. Ainda pensei que fosses dar um pouco de cor ao lábios pálidos, mas não. Usaste-o para te ajudar a disfarçar as olheiras que a noite mal dormida te deixou como troféu. Ficaste um pouco melhor e até tu o achaste(deduzo eu), porque te vi voltar a guardar o espelhinho na mala sem mais demoras. Encostaste a cabeça ao vidro da janela e ficaste para ali a observar a paisagem que te ía fugindo a cada instante... Saíste na paragem da rua da esperança (que ironia tão triste) e desapareceste por entre os rostos da multidão que te engoliu e me deixou a imaginar-te para além do que mais não sei de ti. Mais logo voltas. Tenho a certeza que voltas porque o autocarro não pára fora da paragem e a vida também não.
Este texto foi inspirado neste outro aqui E talvez nem acabe aqui, quem sabe.
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