
Querela do Briguela
Data 21/01/2013 18:33:07 | Tópico: Poemas
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O boneco cai da mão do menino na beira da calçada. O boneco pende com o rosto de pano escondido para baixo, no concreto da calçada, abandonado. Não há nada que o boneco possa fazer, sem a vida do menino que o carrega títere e dono, sem consciência do boneco, ou do mini homem mímese. O menino carrega o boneco como coisa qualquer que lhe dão à mão para que segure. Manter os pequenos dedos, tentáculos do tato, perto, ocupados com algo. Quando o boneco cai, a indiferença. Não acusa, não chama a mãe ou quem o carrega, como o faria se fosse chupeta, mamá, ou coisa parecida à coisa caída no vão. O menino fita algo que não sei, porque fito o boneco no chão.
Vou escrever um poema sobre bonecos, bonecos caídos no chão. Eu sou o boneco caído já. Eu quero a metáfora do boneco em algum texto. Quero dizer que sinto empatia pela calçada, pelo concreto, pelo abandono ríspido vindo de um acaso qualquer. De um solavanco maior que o menino, solavanco provocado por quem carregava o menino e o menino que carregava o boneco. O poema só não pôde existir Porque: - moça, o boneco caiu no chão. Alguém diz como se fosse altruísta. Como se fosse salvador de bonecos, como se fosse dar melhor sina àqueles pedaços de panos antropomorfizados.
Se eu for o boneco, não sei quem é o menino que me carrega e nem quem é a suposta mãe do menino que o carrega em solavanco. Não sei quem me abandona. Só sei que sinto o peso de pender ao léu numa sarjeta. Talvez eu só queira ser o boneco, eu quero ser o personagem principal dos meus poemas.
Eu quero ser as divindades, minha própria musa. Eu devoro-me em banquetes narcidionisíacos. Eu só não sou Jesus, nem salvador. Não finjo ser do amor, quando não sou. Eu vi o boneco caído, eu vi a cena toda. Eu não salvaria o boneco, eu não salvaria o menino. Eu não sou salvador. Não há salvação.
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