
Momentos
Data 01/12/2012 13:10:51 | Tópico: Poemas
| Há momentos em que sentir é como a ausência do postigo por onde poderia, se houvesse, infiltrar-se a voz melíflua do poema É como a carência das manhãs transcedentes e o constante perfume do orvalho no ar É como a garrafa lançada ao mar viajando sob estrelas que por sua vez viajam o éter trazendo mensagens (poemas?) do inicio das eras É como a solidão que se instala transbordando tudo que eu ainda não disse/não fiz É como o som das insidiosas máquinas de guerra que ca(n)tam as velhas canções e reverberam a cantilena de velhos discursos É como o choro silencioso, sem gesto, sem destino, sem começo e sem fim É como um labirinto infinito onde a esperança repousa ingente É como a inelutável noite que envolve e acorda vendavais e a chuva cai parando o tempo, revirando passados reverberando ao som do vento nas telhas E, afinal, que querem as lembranças? Querem um convívio forçado estes sentimentos que tombam e vibram Não sei conviver Há sempre razões definitivas, certezas indubitáveis e a noite que cessa em todas as janelas onde a parca luz amarelada agoniza junto com a minha emoção Onde as imagens se evolam e o tempo é um truque de um mágico que transforma a eternidade nestes fugidios instantes Às vezes instantes longos, páginas em branco, às vezes cheios de emoção, umedecidos de suspiros que o tempo folheia impunimente A poeisa estremece o singular mistério da noite e dá ao meu sentimento este invisível caminho e esta inefável possiblidade de anotar e rabiscar até perder a razão e colher das flores as cores e o perfume inocente de um verso que chora ou que ri comigo de uma realidade que só existe nele, no verso Eu o olho e o ouço como um menino me olha e me ouve... como se me conhecesse há muito tempo... Um tempo em que só havia poesia no acaso inseguro das manhãs, na tarde que me visita e me espera nos jardins onde flores de papel sorvem as palavras que dizem da brisa crispando as águas do rio, bebendo as pequenas ondas que desaparecem na areia Houve um tempo em que tudo era poesia, madrigais, odes, elegias Versos inconsúteis escritos à cinzas nas páginas da distância e dos momentos onde sentir é o escorrer da chuva no silêncio dissoluto do espinho da rosa que não há e o perfume da rosa, esbatido pelo vento, ondula em teus cabelos onde dorme a noite O vento argumenta sua quase tristeza, arremete, debalde, as naus contra os portos, acorda meus velhos sonhos sonolentos e empresta-lhes a face de uma lua cheia de um dezembro que ainda não veio Há momentos em que sentir é só como estes sentimentos cativos e estes caminhos cobertos por folhas secas caídas com o vento e com as chuvas nas madrugadas onde me esqueci e me esquecendo o tempo, possesso, me resgata deste teatro e da contumaz mentira que transforma o meu hoje em um ontem irrefreável acumulando-se aurora após aurora ansiando por ser poesia e liberdade Nestes momentos em que sentir é como o menino jogando as cinco pedrinhas na praça deserta antes de decidir morrer Quando eu me for qual flor brotará? Branca, vermelha, amarela, lilás, azul...? Que importa? As flores brotarão e levarão o pânico da minha noite e atearão fogo à minha suposta "poesia" incorrigível e alquebrada sentindo o que não sente virando o mundo às avessas antes que a aurora refreie a voz do poeta e este, então, adormeça
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