O meu cão também sente (saudade)

Data 26/11/2012 17:40:48 | Tópico: Contos -> Infantis


(e em respeitosa homenagem ao grande Carlos Paredes)

Era uma vez um cãozinho que vivia solto, num jardim com uma grande casa, num tempo sem elevadores e horas certas de ir alçar a patinha a um qualquer mirrado arbusto da rua, ou a uma cerrada esquina da lua.

Era feliz, o cãozinho. E pequenino - aliás, a dona até o chamava carinhosamente "meu canininho", entre um riso, uma lágrima, e um toque de telemóvel a entoar a música do Carlos Paredes, "Verdes Anos".
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E tanto que tocava aquele telemóvel, nessa época! O cãozinho ouviu-o tantas vezes, que já o sabia de cor e salteado essa música, e saltitava a avisar a dona, quando, por distracção ou atonia, ela não se apressava a atendê-la.

Mas os anos, que eram verdes, de tanto bater a mesma música, foram amarelecendo, amadurando. Veio a época da colheita, e o toque "Verdes anos" foi atirado contra uma parede e o pobre do telemóvel calou-se para sempre...

Mas os anos, que maturam e nem tanto aturam, lá trouxeram outro telemóvel às mãos da sua dona, agora com um toque diferente, que o cãozinho nunca chegou a saber de ouvido, já que, nesta nova era de semeio, as chamadas recebidas eram escassas.

Um belo dia, muito tempo depois, por puro acaso, alguém carregou num botão qualquer e a música "Verdes anos", encheu a casa - e os ouvidos do cão. Não se sabe que botão interior doeu lá dentro da memória do serzinho peludo - talvez o da saudade! o certo é que, dir-se-ia angustiado, correu para perto da dona, colocou-lhe as patitas nos joelhos e começou a... chorar, acreditem ou não! Como uma criança que perdeu um tempo, um brinquedo, uma afeição! Sem lágrimas, mas com o som do desespero na garganta e a tristeza nos olhitos!

...

e é assim, sempre que eu liberto esses belos trinados de guitarra, tão magistralmente tocados por Carlos Paredes, tão intimamente guardados na memória do meu mais fiel amigo - o meu pequeno e doce Júnior.


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