
É o que parece
Data 09/11/2012 12:54:50 | Tópico: Poemas
| A Antônio Cícero e Letícia Valentim
É o que parece, Por isso tantos conflitos, Tantos gritos e ritos, Teogonias e preces.
Por isso tantas crenças, A História e o Tempo, A voz de Deus Onde há somente O sussurro do vento.
É o que parece, Por isso este poema Contra a voz cartesiana, Contra todo sistema Que nos engana.
Por isso este poema, Que também será esquema Propenso ao erro, Se apenas for Aquilo com o qual quer parecer-se Mas com ele não se parecer.
Por isso tantas formas, O anseio por ordem, O ilusório encanto da norma, O canto e as essências Onde só há aparência.
É o que parece. E não há Como ser diferente. É a virtude Ou engano da mente. O que se diz e ilude, É o interminável museu Dos discursos do eu.
E o que ouvi De mais bonito Foi uma criança dizer, Após muito contar, Que depois do mil Só há o infinito.
É o que parece. E malgrado Alguém dissesse: “Tudo é!” Não estaria mentindo; Tudo é! E com isso se parece.
Não há como dizer O que é o ser E entre o que digo ser E como aos outros me pareço Vivo e desapareço.
É o que parece E só ao dizê-lo Já me traio Pela linguagem E mergulho Nessa imensa viagem
De querer dizer tudo: O que, efeméride, Ganha breve aspecto, Surge e desaparece,
O que não ganha tempo Para dizer-se Sequer coisa ou ser, O que resplandece Para logo perecer,
Tudo que com a vida Se parece e que deixa De com ela parecer-se Quando se torna Discurso, regra ou prece.
Tudo que é E se torna Uma outra natureza, Dura empresa Que a vida Não mais reconhece.
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