
Cântico II
Data 01/11/2012 12:09:00 | Tópico: Poemas
| Quantas vezes Já morreu e nasceu Esta árvore? Quantas vezes Já morreu e nasceu Este pássaro? Quantas vezes Já morreu e nasceu Estas montanhas? Quantas vezes As marés já Me raptaram e devolveram Este mar? Quantas vezes Já morreu e nasceu Este corpo? Olho agora Eternecido Para meu último renascer, Para o meu mais recente parecer. Filho, Devo dizer-te: Já fui, Já fomos O trilo Do pássaro, O grilo Que tem no bico, Já fui, Já fomos O seu pipilo Ao nascer, O pistilo Da flor Antes de morrer, O silêncio E o sigilo destas serras, O céu Quando me rutilo Em nuvem, em sol Em mar. Porque ontem, Hoje, amanhã Fui homem, Pássaro, mar, Esta manhã Que, em breve, Morrerá, O Cáspio Ou Egeu Nos refolhos do eu. Já estive roto, Todo sujo E magnificamente Pintado Num vaso etrusco, Já estive No esgoto E no luxo, Mas sempre cerúleo No âmago de tudo, Porque a consciência Mesmo ciente, Se perde, Esvanece, Mas a matéria Permanece, Se atreve Contra o momento, É o próprio manto Espaço-tempo, O início, O Quantum. Porque ontem, Mais uma vez Vi a flor e a tez Que fui, que fomos No féretro, No moribundo Ou na prenhez Do mundo, Vi como fui, Como um dia apareci Antes de assim parecer, Mais uma vez, Antes do que sou, Deste corpo Esvanecer-se Ao morrermos. Vi que a memória Da matéria É a inércia Desses montes, Algo que jamais esquece E guarda-se sempre Do discurso, da prece Ou da quimera De quem se desespera E se nega Para nos impingir Uma única vida Eterna, Enquanto somos tantas Que perecem.
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